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quinta-feira, 18 de junho de 2026

A relação entre episteme burguesa e psicanálise em obra organizada por Lucas Maia

 Episteme Marxista e Psicanálise - Lucas Maia (org.).



A obra organizada por Lucas Maia traz uma reflexão importante sobre as relações entre o marxismo, concebido como uma episteme (um modo de pensar subjacente que atua sobre o conteúdo do pensamento), e a psicanálise, compreendida como uma manifestação da episteme burguesa. Nesse contexto, a obra apresenta uma concepção crítica da psicanálise a partir dos seus vínculos com o pensamento burguês e, assim, se abre caminho para sua reformulação e avanço no sentido de se vincular à perspectiva do proletariado. É nesse contexto que obras de Freud e a aceitação acrítica do freudismo são trabalhadas no presente livro. Para aqueles que se interessam pela relação entre marxismo e psicanálise, freudomarxismo, crítica do freudismo, entre outros temas correlatos, a presente obra se torna fundamental.




Título: Episteme Marxista e Psicanálise
Organizador: Lucas Maia
Autores: Alice Viana, Lucas Maia, Nildo Viana
Editora: Edições Redelp
Edição: 01
Ano: 2026
Páginas: 104
Coleção/Série: Dialética e Sociedade, 13.
ISBN: 978-65-86705-61-4

TEXTO DA ORELHA

A psicanálise hoje é uma das ciências mais populares e bem recebidas por vastos setores da sociedade. Freud e seus discípulos e dissidentes hoje fazem fortuna. O marxismo, por sua vez, já teve altos e baixos em sua popularidade e aceitação. A relação entre essas duas concepções assumiu várias formas. Muitos supostos marxistas condenaram e criticaram a psicanálise, enquanto outros a defenderam e buscaram uni-la com o marxismo. Os textos aqui reunidos iniciam um outro debate, que escapa tanto das negações stalinistas e simplificadoras da psicanálise quanto da sua aceitação acrítica ou mescla eclética com o marxismo. Um outro caminho é apresentado, o da crítica e da assimilação da psicanálise pelo marxismo. No presente volume, emerge o momento crítico, passo necessário para a posterior assimilação.

 

SOBRE O AUTOR:

 

Lucas Maia é doutor em Geografia, pós-doutor em Sociologia e tem formação em Psicanálise. Atua profissionalmente como professor do Instituto Federal de Goiás – IFG há vários anos. Suas pesquisas abordam temas diversos: história e dinâmica do movimento operário, movimentos sociais, educação e correntes pedagógicas, com destaque para Pedagogia institucional e autogestão pedagógica, o pensamento de Freud e relações da psicanálise com a literatura etc. Contudo, o maior interesse de seus estudos é a obra de Marx e do marxismo subsequente, sobretudo as tendências crítico-revolucionárias, como o Comunismo de Conselhos e o Marxismo Autogestionário. Vários de seus trabalhos versam, por isto, sobre teoria, história e experiências de Autogestão Social. Alguns de seus livros são: Comunismo de Conselhos e Autogestão Social; Leitura Epistêmica de O Capital; Nem Partidos, Nem Sindicados: a Reemergência das Lutas Autônomas no Brasil, entre outros.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

NOVO LIVRO SOBRE ERICH FROMM

 NOVO LIVRO SOBRE ERICH FROMM:




RECORDAR ERICH FROMM


Acaba de ser lançado pela Ragnatela editora (que já publicou "Introdução ao Pensamento de Erich Fromm", de Nildo Viana, na coleção esclarecimento e é selo editorial da Edições Redelp, que publicou "Erich Fromm e os dilemas humanos na sociedade moderna", organizado por André de Melo Santos) o livro Recordar Erich Fromm, organizado por Alexandra Viana e Alice Viana, que também são autoras de dois artigos publicados na coletânea. Além das duas autoras, a obra conta também com contribuições de Alan Ricardo Duarte Pereira e Nildo Viana. Abaixo mais informações:

A extensa obra de Erich Fromm oferece uma análise geral do ser humano, sua mente e sua natureza, bem como oferece uma radiografia da sociedade capitalista e suas características e contradições. O esquecimento da contribuição de Fromm é algo que deve ser superado, sob pena de aprofundarmos ainda mais na superficialidade e na incompreensão da modernidade e dos perigos do destino humano. Alexandra Viana e Alice Viana, resgatam, ao lado dos colaboradores, com a presente coletânea, um pensamento fundamental para repensar nossa sociedade e a nós mesmos (Texto da orelha).











quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Meu Encontro com Marx e Freud - Erich Fromm disponibilizado!

 MEU ENCONTRO COM MARX E FREUD DISPONIBILIZADO!



Nessa obra, Fromm apresenta sua autobiografia intelectual e aponta para a interpretação de Fromm sobre as obras de Marx e Freud e seus temas fundamentais, tais como natureza humana, inconsciente, ilusões, etc., bem como os seus próprios conceitos, como caráter social, inconsciente social, entre outros.

Acesse o pdf do livro Meu Encontro com Marx e Freud, de Erich Fromm, clicando aqui.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Fromm Crítico de Freud



Fromm Crítico de Freud





Nildo Viana


Resumo: O presente artigo retoma a crítica de Fromm a Freud, mostrando as divergências entre os dois pensadores. Fromm realiza uma crítica metodológica do materialismo burguês e mecanicista de Freud, uma crítica teórica ao seu biologismo e pansexualismo e, por fim, uma crítica política ao seu conservadorismo, patriarcalismo e autoritarismo.
Palavras-chave: Fromm, Crítica, Freud, materialismo, conservadorismo.


Abstract: The present article retakes critical of Fromm the Freud, showing the divergences between the two thinkers. Fromm carries through a critical methodological of the bourgeois and mechanist materialism of Freud, a critical theoretician to its biologism and pansexualism and, finally, a critical politics to its conservatism, patriarcalism and authoritarianism.
Key-words: Fromm, Critical, Freud, materialism, conservatism.


O pensamento de Erich Fromm tem dois pensadores que serviram de inspiração: Marx e Freud. Apesar de se inspirar nesses pensadores, Fromm busca ir além deles e produzir sua própria concepção, através da busca de síntese entre Marx e Freud[1]. Porém, Fromm não poupa críticas principalmente a Freud. É justamente a crítica de Fromm a Freud que tomaremos como tema de análise no presente artigo. Sua importância para a compreensão do pensamento de Fromm é fundamental e, além disso, é importante porque a maioria dos leitores de Fromm geralmente não faz a leitura de suas obras dedicadas exclusivamente a Freud (Fromm, 1976; Fromm, 1980).
Freud foi o fundador da psicanálise. Sem dúvida, as ideias de “pai da sociologia”, “pai do comunismo”, entre outras, são equivocadas. Porém, no caso da psicanálise, a situação é diferente. Apesar de ter se inspirado em outros pesquisadores de sua época, Freud foi um pensador original e a descoberta do inconsciente, embora já esboçada em outros aspectos por outros antecessores, e a fundação da psicanálise, tanto no que se refere à suas bases conceituais quanto à prática institucional, se deve a Freud. Tão logo Freud lançou as bases de fundação da psicanálise, logo foi vítima de ataques coléricos, por um lado, e de adeptos entusiasmados, por outro. Em torno de Freud se formou um círculo de interessados em psicanálise e estes mantinham as ideias centrais expostas por Freud. No entanto, com o passar do tempo, aqueles que foram chamados de “discípulos’, logo começaram a divergir do “mestre”. Alfred Adler e Carl Gustav Jung foram os primeiros a romper com a concepção de Freud. O ponto de divergência principal foi a primazia oferecida por Freud para a questão sexual. Adler desenvolveria a ideia do “complexo de inferioridade” e “vontade de poder” (Adler, 1939; Rühle-Gerstel, 1941; Mullahy, 1986) como elemento central em sua “psicologia individual” e Jung desenvolveria a ideia de que a libido é energia psíquica global e não de orientação sexual (Silveira, 1981; Jung, 1978; Mullahy, 1986).
Sem dúvida, diversas outras dissidências ocorreram no campo psicanalítico, tais como as de Reich e Fromm, estes considerados freudo-marxistas. Aqui nos interessa fundamentalmente a crítica de Fromm a Freud. Podemos dizer que Fromm endereçou a Freud diversas críticas.  Podemos destacar, em primeiro lugar, a crítica metodológica; em segundo lugar, a crítica do biologismo e pansexualismo; em terceiro lugar, a crítica política. Estes três elementos não esgotam as divergências e críticas de Fromm a Freud, mas são as principais e base de todas as demais divergências.
Crítica Metodológica: Mecanicismo e Racionalismo
A crítica metodológica é realizada em diversas obras e passagens. O elemento central de sua crítica se encontra no caráter do materialismo de Freud: mecanicista e burguês. Isso era relativamente comum na época de formação de Freud, época comandada pelo materialismo burguês e cientificismo. Para Fromm, “está claro que Freud foi educado em função do materialismo fisiológico-mecanicista predominante entre os médicos e fisiologistas de sua época [...]”, apesar de ter elementos sociológicos e filosóficos sem sua obra (apud Evans, 1967, p. 64). Assim, a base metodológica de Freud foi “a teoria do materialismo burguês, tal como foi desenvolvida, especialmente na Alemanha, por homens como Vogt, Moleschott e Büchner” (Fromm, 1980, p.12). A concepção materialista burguesa era mecanicista e entendia por matéria algo físico, ou seja, a matéria física[2].
“Em Kraft und Stoff (Força e Matéria)(1855), Büchner afirmou ter descoberto que não existe força sem matéria, nem matéria sem força; esse dogma era largamente aceito na época de Freud. O dogma do materialismo burguês era o de seus mestres, especialmente o seu mais importante professor, Von Brücke. Freud permaneceu sob a forte influência do pensamento de Von Brücke e do materialismo burguês em geral; e, sob tal influência, foi incapaz de conceber a existências de fortes poderes físicos dos quais não se pudesse demonstrar que tinham raízes fisiológicas específicas” (Fromm, 1980, p. 12).
Outra crítica de Fromm a Freud se encontra em seu “racionalismo obsessivo”. Para Fromm, Freud “constrói teorias na base de praticamente nada e violenta, de fato, a razão. Fez amiúde construção usando pequenos fragmentos de provas que levaram conclusões absurdas” (Fromm, 1980, p. 21). O exemplo de Fromm de A História de uma Neurose Infantil é uma demonstração disso. Fromm, após descrever o caso através das citações de Freud, conta como Freud construiu um processo de interpretação arbitrária para encaixar o caso em sua concepção pré-estabelecida. Para demonstrar isso, conta a narração, por Freud, do sonho do paciente:
“Sonhei que era noite e estava deitado em minha cama. (Os pés da cama estavam na direção da janela; defronte da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho e que era de noite). De súbito, a janela abriu-se sozinha e eu fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira defronte da janela. Havia uns seis ou sete deles. Eram muito brancos e pareciam mais raposas ou cães-pastores, pois tinham longas caudas como as raposas e orelhas espetadas com os cães quando prestam atenção a alguma coisa. Com grande terror, evidentemente com medo de ser devorado pelos lobos, gritei e acordei” (apud. Fromm, 1980, p. 22).
A partir dessa narrativa do sonho, Freud chegou à seguinte interpretação:
“O sonho mostra que o menino tinha estado dormindo em seu berço com a idade de um ano e meio; despertou certa tarde, possivelmente às 5 horas e presenciou o coitus a tergo [por trás] três vezes seguidas. Pôde ver os órgãos genitais da mãe, assim como o órgão do pai, e compreendeu o processo e seu significado. Por último, interrompeu o intercurso parental de um modo que será discutido mais adiante” (apud. Fromm, 1980, p. 23).
Fromm comenta:
“Formar uma hipótese sobre o que realmente aconteceu ao menino de um ano e meio de idade, partindo de um sonho que nada diz a não ser que a criança viu alguns lobos, parece ser um exemplo de pensamento obsessivo com desprezo completo pela realidade. Por certo, Freud usa essa associação e integra-a numa tessitura total, mas essa tessitura não se justifica com qualquer pretensão da realidade. Essa interpretação do sonho do Homem dos Lobos, um dos exemplos clássicos da arte freudiana de interpretação de sonhos, é, na realidade, um testemunho da capacidade e da inclinação de Freud para construir a realidade a partir de uma centena de incidentes, quer conjeturados, quer obtidos por interpretação, retirados do contexto e usados a serviço de certas conclusões que se ajustam à ideia preconcebida de Freud” (Fromm, 1980, p. 23).
Fromm diz que vários outros exemplos poderiam ser citados, mas por questão de espaço se limita a este exemplo. Em outra obra, faz análise semelhante no caso da interpretação freudiana em “Análise da Fobia de um Menino de Cinco Anos”, também conhecido como “O Caso de Joãozinho”. Fromm demonstra novamente os problemas interpretativos de Freud, inclusive seu pressuposto equivocado que a educação de Joãozinho seria menos repressiva, pois ele mesmo na narrativa do caso prova o contrário (Fromm, 1977). Claro que outros exemplos poderiam ser citados, tal como sua interpretação do mito de Rei Édipo (Fromm, 1980; Fromm, 1980b), inclusive pelo fato de que a interpretação de Freud não toma a trilogia e sim apenas Édipo Rei (Fromm, 1983), ou então da sua ficção em Totem e Tabu (Viana, 2008). A grande questão é que Freud possui uma predisposição mental para comprovar determinadas ideias e por isso acaba abandonando a riqueza da totalidade da realidade para se refugiar em sua interpretação unilateral (Viana, 2008), e Fromm demonstra várias interpretações que comprovam isto.
Esse “racionalismo obsessivo” é produto da época e da tradição iluminista que Freud se afiliava. Apesar de ter percebido a atuação das forças irracionais no comportamento humano, a base interpretativa de Freud era racionalista (Evans, 1967; Fromm, 1980
Crítica ao Biologismo e Pansexualismo
Um outro elemento da crítica de Fromm a Freud é a base pansexualista e biologista da concepção freudiana. Ele entende que a partir do materialismo mecanicista do século 19, Freud elaborou uma concepção que buscava encontrar uma base fisiológica para sua abordagem psicanalítica.
“Em consonância com o modo de pensar materialista predominante nas Ciências Naturais nos últimos anos do século XIX, que supunha que a energia dos fenômenos naturais e psíquicos fosse uma entidade substancial e não de relação, Freud acreditou que o impulso sexual fosse a fonte de energia do caráter. Por meio de várias suposições complexas e brilhantes, explicou diferentes traços de caráter como ‘sublimações’ de, ou ‘formações reativas’ contra, as várias formas do impulso sexual. Interpretou a natureza dinâmica dos traços de caráter como uma expressão de sua origem libidinosa” (Fromm, 1978, p. 57).
Fromm postulava uma outra concepção, apesar de tomar como ponto de partida a elaboração freudiana, mas fornecia uma ênfase maior aos aspectos sociais, desde a contribuição de Marx, da antropologia social, etc. e assim se diferenciava de Freud ao não tomar os instintos sexuais como força motriz da ação humana[3]. Ele concebe o ser humano não como fundamentalmente biológico, mas social:
“A diferença fundamental da teoria clássica é que Freud tentou entender todas as paixões humanas como enraizadas nas necessidades fisiológicas ou biológicas: ele fez construções teóricas ingênuas a fim de preservar esta posição. Na estrutura teórica apresentada aqui as pulsões mais poderosas não são as da sobrevivência física (numa situação normal em que a sobrevivência não está ameaçada), mas aquelas através das quais o homem busca uma solução de sua contradição existencial; um objetivo para a sua vida que canalizará suas energias numa direção, transcendendo-se, como um organismo que busca sobrevivência e dá significado à sua vida. Toda evidência clínica e histórica mostra que somente a busca e a satisfação de suas necessidades biológicas deixa o homem insatisfeito e inclinado a sérias perturbações” (Fromm, 1992, p. 48).
Assim, Fromm discorda e crítica Freud por seu biologismo e coloca em seu lugar elementos antropológicos e culturais. Segundo La Fuente, “a única pulsão biológica que Fromm postula no homem é a de viver e crescer” (1989, p. 25). Claro que Fromm avança, como coloca La Fuente, no sentido de ir além de Freud e considerar o ser humano como criatura supra-instintiva. A percepção de ser humano de Fromm é bem mais ampla e totalizante do que a de Freud e esta é uma de suas principais contribuições para a psicanálise.
Crítica Política: Conservadorismo, Autoritarismo e Patriarcalismo
A crítica política de Fromm a Freud é bem mais extensa. Destacaremos apenas seus traços principais. Em várias obras e passagens ele destaca o caráter conservador, autoritário e patriarcal de Freud. Em A Missão de Freud ele faz um trabalho biográfico-analítico de Freud, mostrando as relações deste com sua mãe, pai, mulheres e homens. Apesar do interesse dessa incursão de Fromm, não poderemos, por questão de espaço, remontar tal análise, mas tão-somente colocar em evidência a crítica de Fromm a Freud.
Freud é apresentada por Fromm como um típico representante da sociedade vitoriana do século 19. Nesse sentido, trata-se de um representante do patriarcalismo. A interessante análise de Fromm da passagem das ideias iluministas no período heróico da burguesia para a posição patriarcalista pós-revolução burguesa expressa uma aplicação do que alguns denominariam “sociologia do conhecimento” ou, ao estilo Max Scheler, “sociologia do saber”. Fromm distingue dois princípios e para isso retoma a discussão sobre “direito materno”, o princípio matriarcal e o princípio patriarcal[4].
“O princípio matriarcal é o do amor incondicional, da igualdade natural, da ênfase sobre os vínculos de sangue e terra, compaixão e misericórdia; o princípio patriarcal é o do amor condicional, da estrutura hierárquica, do pensamento abstrato, das leis feitas pelo homem, do Estado e da Justiça. Em última análise, misericórdia e justiça representam, respectivamente, os dois princípios” (Fromm, 1977, p. 103).
Freud possuía um pensamento patriarcalista e sua posição sobre a mulher demonstra isso:
“Uma sociedade em que as mulheres fossem iguais aos homens, em que estes não mandassem por causa de sua alegada superioridade fisiológica e física, era simplesmente inconcebível para Freud. Quando John Stuart Mill, a quem Freud muito admirava, expressou suas ideias acerca da igualdade das mulheres, Freud escreveu numa carta: ‘Nesse ponto, Mill está simplesmente doido’. A palavra ‘doido’ é muito característica para qualificar aquilo que é inconcebível. A maioria das pessoas chama ‘loucas’ a certas ideias porque só são sensatas, ajuizadas, aquelas que cabem no quadro de referência do pensamento convencional. Aquilo que o transcende é ‘loucura’, na concepção da pessoa comum. (Isso, contudo, é diferente quando o autor, ou artista, se torna bem-sucedido. O êxito não e um atestado de sanidade mental?). O próprio fato e que a ideia de igualdade das mulheres era inconcebível para Freud levou-o à sua psicologia da mulher. Acredito que o seu conceito de que metade da humanidade era biológica, anatômica e psiquicamente inferior à outra metade é quase a única ideia, em todo o pensamento de Freud, que parece estar desprovida de qualquer característica que a justifique, por mais tênue que seja, salvo como um retrato de uma atitude masculino-chauvinista” (Fromm, 1980, p. 12-13).
Fromm também afirma que não é apenas o patriarcalismo que mostra o conservadorismo e o caráter de classe de suas concepções. O caráter burguês perpassa toda a sua obra e isso é visto na base dos seus enunciados teóricos e sua maneira de pensar. Fromm diz que seria necessário “um livro inteiro” para analisar as concepções de Freud “sob o prisma da sua origem classista” (Fromm, 1980).
Fromm destaca alguns aspectos importantes desse pensamento classista em alguns exemplos. Em primeiro lugar, Freud postulava, em sua prática e teoria terapêutica, o objetivo do controle das pulsões instintivas pelo ego e superego, o que o aproximava do pensamento teológico medieval; em segundo lugar, a “descrição grotesca” que ele faz das mulheres, apresentadas como narcisistas, incapazes de amar e sexualmente frias, no qual se baseava nas mulheres de “classe média” e generalizava para a “mulher em geral”, mostrando o caráter sexista derivada de sua concepção burguesa de mundo; em terceiro lugar, a sua concepção de amor – Fromm afirma que Freud falava de amor muito mais do que seus seguidores ortodoxos costumam fazer – coisificada, pois se refere ao “amor objetal”, isto é, “amor ao objeto” e “objeto de amor”, no qual a pessoa amada não deixa de ser objeto e passa a ser como um “investimento de capital”. Freud transformou o “amor patriarcal” em “fenômeno humano universal”. Esta talvez seja a chave, afirma Fromm, para a tese do “complexo de Édipo”. O “espantalho do incesto” esconde a “essência do amor masculino”: fixação na mãe que alimenta e simultaneamente é controlada pelo macho (Fromm, 1980).
O autoritarismo de Freud é exemplificado por Fromm em várias oportunidades e sob várias formas. Tomaremos apenas dois exemplos, o caso de Ferenczi (“o exemplo mais drástico da intolerância e autoritarismo de Freud”) e o de Alfred Adler. Ferenczi foi um discípulo e amigo fiel e despretensioso de Freud e somente no fim da sua vida é que propôs uma alteração na técnica psicanalítica, afirmando que o paciente precisava de amor, que não obteve na infância. Isso entrava em franca oposição com a técnica freudiana que pregava a impessoalidade frente ao paciente. Ferenczi encontrou com Freud e fez uma descrição detalhada de sua experiência clínica e dos procedimentos que começou a utilizar e a reação de Freud foi a seguinte:
“O Professor escutou minha exposição com impaciência crescente e finalmente advertiu-me de estar eu palmilhando terreno perigoso e afastando-me fundamentalmente das praxes e técnicas tradicionais da Psicanálise. Ceder assim aos anseios e desejos do paciente – não importa quão autênticos – aumentaria a dependência deste face ao analista. Essa dependência só pode ser destruída pelo alheamento emocional do analista. Nas mãos de analistas inábeis, disse o Professor, meu método podia facilmente produzir a satisfação sexual em vez de ser uma expressão de devotamento paterno ou materno. Essa advertência encerrou a entrevista. Estendi minha mão para uma despedida afetuosa. O Professor virou-me as costas e saiu da sala” (apud Fromm, 1976, p. 74-75).
Fromm também cita a “atitude rancorosa” de Freud em relação ao caso da morte do “dissidente” Alfred Adler, ao responder uma carta em que Arnold Zweig afirma ter ficado sentido com o falecimento de Adler:
“Não entendo sua compaixão por Adler. Para um rapaz judeu nascido num subúrbio de Viena, a morte em Aberdeen é em si mesma uma carreira sem precedente e uma prova de quanto ele tinha progredido. O mundo realmente recompensou-o regiamente por seus serviços ao contradizer a Psicanálise” (apud. Fromm, 1976, p. 76).
Fromm também analisa a identificação de Freud com grandes líderes políticos e suas ambições políticas, bem como o caráter semi-político do movimento psicanalítico, o que reforça a interpretação de suas tendências conservadoras e autoritárias. Apesar de sua aproximação na juventude com ideias e pessoas liberais e socialistas, ele se afasta desta tendência e logo assume posições bastante conservadoras, buscando naturalizar a competição, a acumulação e outras características da sociedade burguesa. Ele retomava o dito de Hobbes: Homo homini lúpus (“o homem é o lobo do homem”) e naturaliza a agressividade e, por conseguinte, a competição:
“Essa agressividade natural do homem conduz a outro traço, dominante na imagem do homem então corrente, sua competitividade inerente. ‘A sociedade civilizada está perpetuamente ameaçada de desintegração por meio dessa hostilidade primária dos homens uns contra os outros’. Essa hostilidade só aparentemente se baseia na desigualdade econômica. “Abolindo a propriedade privada despoja-se o amor humano da agressão de um de seus instrumentos, um instrumento forte sem dúvida, mas por certo não o mais forte’. Qual, então, é a origem mais forte da competitividade humana – ou antes, masculina? É o desejo dos machos de terem acesso irrestrito e ilimitado a todas as fêmeas que possam desejar. Originariamente, é a competição entre pais e filhos pela Mãe; depois, a competição entre os filhos por todas as mulheres acessíveis” (Fromm, 1976, p. 110-111).
Assim, Freud manifesta ser um indivíduo de sua época e classe social[5] e, por isso, mostrou seus limites em sua concepção de psicanálise, o que gerou diversas dissidências, entre elas a de Erich Fromm. Além das divergências expostas, Fromm apresenta outras, derivadas e pontuais, que não poderemos desenvolver no presente trabalho[6].
Repensando Freud e Fromm
Até aqui nos limitamos a descrever alguns dos aspectos principais da crítica de Fromm a Freud. Porém, o bom leitor é aquele que ultrapassa a leitura dogmática, que não toma o escrito como verdade inquestionável e sim como ponto de partida para reflexão e análise crítica. As críticas de Fromm a Freud são corretas em quase todos os aspectos. Porém, Fromm não aprofunda muito a crítica metodológica que faz a Freud, em parte devido suas próprias deficiências metodológicas. Uma crítica metodológica aprofundada da psicanálise freudiana ainda está por ser feita, embora análises de sua “epistemologia” já tenha sido esboçada (Assoun, 1983). Além do materialismo mecanicista identificado por Fromm, e da sua inspiração em diversos pensadores, inclusive Darwin, é necessário perceber outros aspectos, tal como o energetismo (Assoun, 1983) e o papel de Lamarck nesse aspecto (Ritvo, 1992), é preciso uma reconstituição mais profunda das bases metodológicas de Freud.
A crítica do biologismo e pansexualismo é uma das partes mais profícuas da análise de Fromm, mostrando a importância da sociedade na constituição do ser humano e seu universo psíquico. Porém, a forma como faz isto deixa a desejar. Em primeiro lugar, a sua ênfase na cultura é demasiada e assim retira da análise o processo orgânico (“biológico”) e as energias psíquicas e por isso pode confundir repressão cultural com recalcamento psíquico (Viana, 2002; 2010); em segundo lugar, a sua proposta alternativa acaba, devido ao seu culturalismo, não sendo suficiente para explicar determinados fenômenos e nem para compreender o universo psíquico de forma mais ampla.
O problema de Fromm é semelhante ao de Freud, a falta da perspectiva da totalidade no sentido da dialética materialista, como algo concreto. Isto é derivado, entre outras coisas, de sua formação psicanalítica especializada que, apesar da leitura de Marx e outros pensadores, não conseguiu ter uma percepção mais adequada da totalidade da sociedade capitalista e do processo de acumulação de capital e das lutas de classes, elementos ausentes em suas análises. Embora tenha exposto vários aspectos fundamentais da sociabilidade capitalista e da mentalidade burguesa, com suas análises das relações sociais e do que denominou “caráter social”, principalmente em sua trilogia composta pelos livros A Análise do Homem; O Medo à Liberdade e Psicanálise da Sociedade Contemporânea (Fromm, 1978; Fromm, 1981; Fromm, 1976), faltou-lhe a percepção da dinâmica da sociedade capitalista e, por conseguinte, das lutas de classes e do processo de acumulação de capital e suas conseqüências. Nesse sentido, a abordagem de Schaar, segundo a qual o quadro de análise de Fromm não era a sociedade de classe e sim a sociedade de massas, é relativamente correta (Schaar, 1965). Isso, inclusive, obliterou sua concepção de transformação social, que ficou nos limites da sociedade capitalista (Fromm, 1976).
A sua crítica ao conservadorismo, patriarcalismo e autoritarismo de Freud é correta, embora seja perpassada por sua concepção de patriarcalismo, que merece um estudo mais aprofundado que não pretendemos realizar aqui. Porém, independentemente disso e das abstrações envolvidas, é uma crítica correta, já que o sexismo de Freud é por demais evidente e todo o seu modelo analítico, a começar pelo “complexo de Édipo” é uma dedução do universo psíquico humano a partir do sexo masculino, uma abstração reducionista, sem falar de outros problemas relacionados, alguns abordados por Fromm e por questão de espaço não desenvolvemos. O problema do autoritarismo de Freud também é evidente, apesar dos defensores do fundador da psicanálise, como Ernst Jones, justamente criticado por Fromm por sua “ingenuidade psicológica”. O conservadorismo de Freud também é evidente e apenas os leitores dogmáticos é que não percebem isso (Marcuse, 1986) e seus reflexos em sua concepção global, pois somente recortando Freud (assim como ele fez com a realidade) é que ele poderia ser apresentado com um “revolucionário”. A sua ruptura com Reich, por exemplo, tem como um dos principais elementos a divergência política entre ambos[7].
Enfim, as críticas de Fromm a Freud são fundamentais por revelar os limites da psicanálise freudiana, bem como para alertar aos leitores dogmáticos de que suas obras são históricas, determinadas, e não uma verdade indiscutível do psiquismo humano. E, da mesma forma, isso vale para a obra de Fromm, embora tenha cometido menos equívocos que Freud, só pode superar este depois dele ter inovado e desenvolvido teses importantes para compreender o universo psíquico do ser humano. O grande mérito de Freud foi a descoberta do inconsciente e a grande contribuição de Fromm foi a percepção da determinação social e cultural no universo psíquico.
Referências
Assoun, Paul-Laurent. Introdução à Epistemologia Freudiana. Rio de Janeiro, Imago, 1983.
Adler, Alfred. A Ciência da Natureza Humana. São Paulo, Nacional, 1939.
Ansbacher, Heinz e Ansbacher, Rowena. La Psicologia Individual de Alfred Adler. Buenos Aires, Troquel, 1959.
De La Fuente, Ramón. El Pensamiento Vivo de Erich Fromm. México, Fondo de Cultura Económica, 1989.
Evans, Richard. Diálogo com Erich Fromm. Rio de Janeiro, Zahar, 1967.
Fromm, Erich. A Crise da Psicanálise. Freud, Marx e a Psicologia Social. 2ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
Fromm, Erich. A Descoberta do Inconsciente Social. São Paulo, Manole, 1992.
Fromm, Erich. A Linguagem Esquecida. Uma Introdução ao Entendimento dos Sonhos, Contos de Fadas e Mitos. 8ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.
Fromm, Erich. A Missão de Freud. 3ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
Fromm, Erich. Análise do Homem. 10ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
Fromm, Erich. Anatomia da Destrutividade Humana. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.
Fromm, Erich. Grandeza e Limitações no Pensamento de Freud. Rio de Janeiro, Zahar, 1980.
Fromm, Erich. Meu Encontro com Marx e Freud. 7ª edição, Rio de Janeiro, 1979.
Fromm, Erich. O Conceito Marxista do Homem. 8a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.
Fromm, Erich. O Medo à Liberdade. 13ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1981.
Fromm, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 8ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
Korsch, Karl. Marxismo e Filosofia. Porto, Afrontamento, 1977.
Marcuse, Herbert. Eros e Civilização. Uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud. 8a Edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986.
Mullahy, Patrick. Édipo: Mito e Complexo. Uma Crítica da Teoria Psicanalítica. 4ª edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986.
Pannekoek, Anton. Lenin Filosófo. Buenos Aires, Ediciones Pasado y Presente, 1973.
Ritvo, Lucille. A Influência de Darwin Sobre Freud. São Paulo, Imago, 1992.
Robinson, Paul. A Esquerda Freudiana. Wilhelm Reich, Geza Roheim, Herbert Marcuse. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.
Schaar, John. O Mundo de Erich Fromm. Rio de Janeiro, Zahar, 1965.
Silveira, Nise da. Jung – Vida e Obra. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981.
Thompson, Clara. Evolução da Psicanálise. 3ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
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Viana, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo, Escuta, 2008.


[1] Sem dúvida, vários outros pensadores inspiraram Fromm, a maioria sendo admitido por ele e alguns não explicitados por ele. Este é o caso de Alfred Adler: “As semelhanças de Horney e Erich Fromm com Adler foram assinaladas detalhadamente em um trabalho de Walter T. James: ‘Adler deve ser considerado como um dos antecedentes mais importantes de Horney e Fromm... A maior parte das ideias de Horney e Fromm são devidas a Adler por sua aguda consciência da realidade, da influência do ambiente total sobre a personalidade. A insistência constante de Freud sobre a etiologia biológica fazia de toda ‘psicologia social’ real uma impossibilidade, exceto a base do simbolismo sexual... Algumas das conclusões de Adler são partes indispensáveis das psicologias sociais de Horney e Fromm” (Ansbacher e Ansbacher, 1959, p. 47).
[2] Fromm distinguia esse materialismo burguês do materialismo histórico de Marx, inclusive criticando a deformação do pensamento deste último (Fromm, 1979) e mostrando que a concepção positivista, por exemplo, em Lênin e Bukhárin, tomaram conta deste “marxismo” deformado (Fromm, 1983). A substituição do materialismo histórico pelo materialismo burguês teve como principal ideólogo Lênin (), que recebeu as críticas de Korsch (1977) e Pannekoek (1973), apesar de ser a tendência dominante na interpretação de Marx até os dias de hoje.
[3] Nem aceitava a evolução posterior da concepção freudiana que postulou a existência de um “instinto de morte” (apud Evans, 1967; Fromm, 1975),
[4] Obviamente que a análise de Fromm sobre este aspecto é bastante relevante e possui aspectos importantes, apesar de também possuir pontos problemáticos. No entanto, aqui não será possível realizar uma análise mais abrangente de sua abordagem, o que deixaremos para outra oportunidade. Também é necessário destacar a preferência de Fromm pelo princípio matriarcal e também sua consideração que é necessário uma síntese entre os dois princípios.
[5] “Na verdade, existem poucos pensadores que sejam ‘radicais’, no sentido de transcenderem o pensamento de sua classe. Freud não foi um deles” (Fromm, 1980, p. 13).
[6] Um elemento que poderia ser acrescentado é o pessimismo de Freud: “A visão de Freud é completamente pessimista. De seu ponto de vista, a sociedade, por sua própria natureza, força o homem a recalcar sua agressividade inata, cada vez mais. A previsão para o futuro é que, quanto mais civilizado o homem se torna, tanto mais potencialmente destrutivo ficará” (Thompson, 1976, p. 134). Fromm já afirma que Freud era um típico representante do iluminismo e, portanto, um otimista, até a ocorrência da Primeira Guerra Mundial, a qual promoveu sua mudança e transformação em pessimista (apud. Evans, 1967).
[7] Robinson coloca que o postulado de um “instinto de morte” por Freud na última fase do seu pensamento foi o estopim que provocou a ruptura com Reich: “Assim, Reich, tal como Adler antes dele, foi forçado a separar-se da psicanálise por razões tanto políticas como intelectuais. Freud também estava plenamente cônscio da natureza ideológica da sua divergência com Reich. Declarou, da maneira mais injusta, que o artigo de Reich sobre masoquismo ‘culminou na afirmação absurda de que aquilo a que chamamos o instinto de morte é um produto do sistema capitalista’. Freud chegou mesmo ao ponto de declarar que ‘The Masochistic Charater’ tinha sido escrito ‘ao serviço do Partido Comunista’”(Robinson, 1971, p. 30)

domingo, 14 de abril de 2019

MARX E FREUD NA LEITURA DE ERICH FROMM: ALGUNS APONTAMENTOS




MARX E FREUD NA LEITURA DE ERICH FROMM: ALGUNS APONTAMENTOS


Henrique BISETTO1

Resumo: O aparato teórico utilizado por Erich Fromm em suas análises da sociedade contemporânea tem como base duas principais fontes: Marx e Freud. A aproximação destas distintas correntes de pensamento também aconteceu com os teóricos críticos do Instituto para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, como Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse. Erich Fromm fora membro do Instituto tendo contribuído decisivamente para as aproximações da psicanálise e do marxismo quando dos primeiros anos desta instituição. Posteriormente, rompe com o Instituto e desenvolve uma análise original da sociedade contemporânea, cujo principal referencial teórico é uma leitura singular das obras de Marx e Freud.

Palavras-chave: Erich Fromm. Marx. Freud. Teoria crítica. Humanismo.


MARX AND FREUD IN ERICH FROMM READING: SOME NOTES


Abstract: The theoretical apparatus used by Erich Fromm on his analysis of contemporary society is based on two main sources: Marx and Freud. The approach of these different chains of thought also happened with the critical theorists of the Institute for Social Research at the University of Frankfurt, as Max Horkheimer, Theodor Adorno and Herbert Marcuse. Erich Fromm was member of the Institute, where he contributed decisively to the convergence of psychoanalysis and Marxism in the early years of this institution. Afterwards, he breaks his ties with the Institute and develops an original analysis of contemporary society, with the main theoretical framework being a singular way of reading the works of Marx and Freud.

Keyworks: Erich Fromm. Marx. Freud. Critical theory. Humanism.

Introdução



Fromm viveu boa parte do século XX, tendo acompanhado de perto alguns dos principais acontecimentos deste período: a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a ascensão do Partido Nazista na Alemanha, o Fascismo na Itália, o stalinismo na URSS, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Suas obras procuravam responder às dúvidas, desafios, expectativas e temores de seu tempo, nas quais percebemos um traço particular de análise dos problemas sociais

1 Graduando em Ciências Sociais. UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara – SP – Brasil. 14800-901 - hbisetto@yahoo.com.br

Erich Fromm teve um papel significativo no que se refere ao desenvolvimento do pensamento social do século XX. Apesar de ter recebido uma repercussão significativa de seu trabalho na época em que escreveu, hoje em dia, sua obra é pouco mencionada nas análises sociais, sendo que sua contribuição, neste sentido, teve mais repercussão no campo da psicologia e psicanálise.

O Instituto para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt



A união entre psicanálise e pensamento social foi uma das características das pesquisas realizadas no Instituto para Pesquisa Social localizado na Universidade de Frankfurt (Alemanha), a célebre Escola de Frankfurt ou Teoria Crítica.

Autores com origens intelectuais e influências teóricas distintas reuniram-se a partir de 1923, em Frankfurt, empreendendo uma crítica radical daquele tempo. Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Leo Lowenthal, Franz Neumann, Erich Fromm, Otto Kirchkeimer, Friedrick Pollock e Karl Wittfogel foram alguns dos pensadores que participaram do  círculo frankfurtiano [...] De diferentes maneiras, traduziram a desilusão de grande parte dos intelectuais com respeito às transformações do mundo contemporâneo, seu ceticismo quanto aos resultados do engajamento político revolucionário, mas também o desejo de autonomia e de independência do pensamento. (MATOS, 1993, p. 5).

No início, seus fundadores cogitaram a possibilidade de nomear o Instituto como Instituto para o Marxismo, mas preferiram Instituto para Pesquisa Social. Isso pode ser explicado por dois fatores principais: o primeiro era o anticomunismo reinante nos meios acadêmicos alemães entre 1920-1939; o segundo, de que havia discordâncias entre a leitura que os membros do Instituto faziam das obras de Marx com relação à concepção mais vigente do marxismo da época (MATOS, 1993). Seja como for, pode- se perceber a forte influência do pensamento de Marx na orientação das pesquisas feitas ali. Deste modo, seu surgimento foi importante, pois “preenchia uma lacuna existente na universidade alemã quanto à história do movimento trabalhista e do socialismo” (MATOS, 1993, p. 12).
As pesquisas sociais realizadas pelos teóricos ligados à Universidade de Frankfurt tinham uma orientação de crítica à organização social da época, sendo, portanto, politicamente de esquerda. Sobre o contexto histórico do surgimento do Instituto.


A ascensão do nazismo, a Segunda Guerra, o “milagre econômico” no pós-guerra e o stalinismo foram os fatores que marcaram a Teoria Crítica da Sociedade, tal como esta se desenvolveu dos anos 20 até meados dos anos 70. (MATOS, 1993, p.6).

Estes acontecimentos muito intrigavam os pesquisadores frankfurtianos que não estavam satisfeitos com as explicações teóricas vigentes, fossem elas vindas do pensamento conservador ou da interpretação marxista hegemônica da época. Assim, buscaram um novo método de análise social marcado pela interdisciplinaridade na pesquisa, cujas principais disciplinas do saber utilizadas nas pesquisas eram a Filosofia, a Sociologia e a Psicologia – orientada de acordo com o projeto psicanalítico de Freud (ASSOUN apud CASTRO; LIMA, 2014).
Aqui se faz necessário uma breve explanação sobre a interdisciplinaridade do Instituto, principalmente no que se refere às ligações entre a teoria psicanalítica freudiana e o marxismo. Tentar-se-á indicar as linhas gerais dos vínculos entre a Sociologia e a Psicologia, estabelecidos pelos membros do Instituto. Além disso, indicar também a importância da psicologia, em especial da Psicanálise, na compreensão dos fenômenos sociais.
A grande referência teórica dos autores da Universidade de Frankfurt no que diz respeito aos estudos dos fenômenos psicanalíticos foi Sigmund Freud (1856-1939).
Freud foi o


[...] criador da psicanálise, e um dos autores que mais profundamente revolucionaram o pensamento de nossa época [...] Formou-se em medicina na Universidade de Viena (1881) [...], mais tarde tornou-se professor da universidade, passando também a manter um consultório em Viena. Começou a desenvolver sua teoria psicanalítica no início  do século, alcançando grande fama e notoriedade [...]. A teoria freudiana teve grande impacto não só na psiquiatria e na psicologia, mas na filosofia e nas ciências humanas e sociais em geral. Especialmente para a filosofia, sua revelação do inconsciente como lugar de nossos desejos reprimidos, origem de nossos sonhos e fonte de nosso imaginário, provocou um profundo questionamento da tradição filosófica racionalista que definia o homem precisamente por sua consciência e racionalidade. [...] Freud desenvolveu assim um exame de um lado da natureza humana em grande parte ignorado até então pela filosofia, forçando a revisão da conceituação filosófica do pensamento, da razão, da consciência e da vontade. (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p.116-117).

Hoje em dia obra de Freud é reconhecida como uma grande contribuição para se pensar o ser humano, tanto em sua esfera individual quanto na esfera social. Porém, a princípio a teoria freudiana foi recebida com receio pelos marxistas. Trotsky (1879- 1940) havia se mostrado favorável às descobertas psicanalíticas de Freud, porém sua voz não foi escutada nos círculos comunistas, onde a orientação pavloviana2 era mais forte e, também, existia um tabu a respeito de Freud e seus seguidores. Reich, ex- discípulo de Freud, que havia tentado uma conciliação deste ao pensamento marxista tinha sido expulso tanto do partido comunista alemão como do movimento psicanalítico alemão. Além disso, tanto conservadores quanto revolucionários estavam de acordo que o pessimismo de Freud no que se refere às possibilidades de transformação social eram incompatíveis com as esperanças revolucionárias de um verdadeiro marxista (JAY, 1986).
O “pessimismo de Freud” no que se refere ao ser humano em sua vivência em sociedade pode ser sintetizado tal como em Matos (1993), que expõem as implicações da teoria freudiana nas análises sociais,

Em A civilização e seus descontentes, Freud apresentou o dilema de toda vida civilizada: em primeiro lugar, a antítese entre a busca individual de autogratificação e a necessidade de princípios gerais de justiça aos quais devem se submeter todos os membros da sociedade. As tendências hostis ou anti-sociais não se originam em um instinto de morte, mas na própria energia da vida. (MATOS, 1993, p.36-37).

E completa tal argumentação citando uma passagem do próprio Freud onde isso fica evidente:

Quase toda relação emocional muito íntima entre duas pessoas que dura algum tempo – casamento, amizade, relações entre pais e filhos – deixa sentimentos de aversão e de hostilidade que só escapam à consciência como resultado da censura, da repressão. Se tal aversão e hostilidade estão presentes até mesmo em relações íntimas, pode-se imaginar o quanto estão manifestas nas relações nas quais não se encontram ligações libidinosas, sensuais, primárias. (FREUD apud MATOS, 1993, p.37).

Posteriormente, as teorias de Freud foram recebidas, basicamente, de duas maneiras distintas dentre os marxistas: um grupo ressaltava a materialidade das

2 Ivan P. Pavlov (1849-1936) foi um fisiólogo russo que procurou explicar o funcionamento da consciência como algo que derivava de “reflexos condicionados e não condicionados”, fruto de reações fisiológicas. A psicologia pavloviana foi bastante estimulada, em detrimento de outras teorias, na URSS (BOTTOMORE, 2013, p.485).

descobertas freudianas, característica que possibilitaria a teoria de portar uma verdade científica, tal como o marxismo; enquanto outro grupo via na psicanálise e no pessimismo cultural de Freud uma naturalização da sociedade burguesa, da ordem capitalista (CASTRO; LIMA, 2014).

Uma questão urgente: o nazismo



Apesar das divergências teóricas, havia certa urgência no sentido de desenvolver um referencial teórico capaz de explicar um fenômeno social que havia surgido na sociedade alemã e que se expandia em um ritmo assustador: o nazismo e a forte adesão da população à propaganda deste regime (CASTRO; LIMA, 2014).
No livro A Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991, de Eric Hobsbawm (1995), buscamos as principais referências teóricas para a compreensão do contexto histórico do século XX. No capítulo 4, “A queda do liberalismo”, que trata do fascismo e do nazismo, há uma interessante epígrafe que aponta para as dificuldades do teórico social na tentativa de compreender o que foi este regime alemão que tomou o poder em 1933:

No nazismo, temos um fenômeno difícil de submeter-se à análise racional. Sob um líder que falava em tom apocalíptico de poder ou destruição mundiais, e um regime fundado numa ideologia absolutamente repulsiva de ódio racial, um dos países mais cultural e economicamente avançados da Europa planejou a guerra, lançou uma conflagração mundial que matou cerca de 50 milhões de pessoas, e perpetrou atrocidades – culminando no assassinato mecanizado em massa de milhões de judeus – de natureza e escala que desafiam a imaginação. Diante de Auschwitz, os poderes de explicação do historiador parecem deveras insignificantes. (KERSHAW apud HOBSBAWM, 1995, p.113).

O terror nazista desafiava os cientistas sociais a encontrar explicações para a grande adesão da população da Alemanha, “um dos países mais cultural e economicamente avançados da Europa”, ao regime de Hitler.

As explicações oferecidas pelo marxismo vulgar eram insuficientes. A questão não estava em saber como a social democracia tinha, ou não, iludido os operários, mas em saber por que estes se tinham deixado iludir, nem em saber se a propaganda burguesa era ou não eficaz, mas em saber por que a contra propaganda marxista era ineficaz. (ROUANET, 1986, p.14).

Diante dessa situação, a psicanálise aparecia como uma importante ferramenta teórica que, “[...] enquanto disciplina do funcionamento psíquico, oferecia mecanismos para uma explicação que complementasse a história enquanto força motriz de seu movimento.” (CASTRO; LIMA, 2014, p.5).

[...] se o marxismo, enquanto ‘crítica a economia política’ desnuda a desrazão objetivamente imanente a razão capitalista, a psicanálise, enquanto crítica da consciência, pode revelar os mecanismos pelos quais o objetivamente irracional se converte ao seu contrário, e é vivido como subjetivamente racional. (ROUANET, 1986, p.122).

Com as descobertas freudianas sobre o inconsciente era possível explicar a “irracionalidade” do nazismo que, quando combinada com uma análise marxista, possibilitava uma compreensão mais profunda dos diversos elementos relativos a complexidade deste novo fenômeno social. E é justamente este o contexto no qual começa a surgir uma teoria que aproximava o marxismo do freudismo. Esta tentativa, porém, implicava em uma alteração do marxismo tradicional. Neste sentido, é comum lermos nos textos da teoria crítica a afirmação de que a apropriação das teorias de Marx pelos pesquisadores a ela vinculados acontece de uma maneira não dogmática. Essa alteração das teorias do marxismo tradicional foi chamada por alguns estudiosos de “neomarxismo”.

[…] la tentativa del Institut für Sozialforschung para introducir el psicoanálisis em su Teoría Crítica neomarxista fue así un paso atrevido y poco convencional. Fue también uma señal del deseo del Institut de dejar atrás la camisa de fuerza del marxismo tradicional. (JAY, 1986, p. 52).


Erich Fromm e o Instituto para Pesquisa Social da Universidade de Frankurt



Cabe apontar alguns fatos importantes da aproximação entre psicanálise e pensamento social nos autores vinculados à Escola de Frankfurt. Horkheimer, um dos principais pensadores da Teoria Crítica, começou a se interessar por Freud na década de 1920. Seu interesse foi parcialmente estimulado por Leo Lowenthal — sociólogo posteriormente vinculado ao Instituto —, que havia tido contato com a psicanálise por meio de Friede Fromm-Reichmann (esposa de Erich Fromm). Em 1929, Horkheimer convence Karl Landauer, ex-aluno de Freud, a formar o Instituto Psicanalítico de

Frankfurt, a primeira organização declaradamente freudiana a vincular-se a uma universidade alemã3. Posteriormente outros membros foram se unindo ao Instituto Psicanalítico, dentre eles, Heinrich Meng, Erich Fromm e Friede Fromm-Reichmann. Erich Fromm havia sido indicado por Lowenthal, de quem já era amigo há mais de dez anos, e se estabelece como uma das figuras mais importantes no que se refere à tentativa de aproximação entre Marx e Freud (JAY, 1986). Como afirma Martin Jay, “fue así básicamente a través de la obra de Fromm como el Institut intentó reconciliar a Freud e Marx” (JAY, 1986, p.155).
Assim, aos poucos, a conciliação entre elementos marxistas e freudianos foi acontecendo. Porém, houve diferentes abordagens no que se refere a esta tentativa. As diferenças aconteceram tanto entre os teóricos críticos quanto em autores que não necessariamente eram vinculados à Universidade de Frankfurt. Wilhelm Reich, por exemplo, que não era vinculado ao Instituto, afirmava que a repressão sexual trazia por conseqüência nos indivíduos o conservadorismo político, enquanto a liberdade sexual propiciaria condições para uma postura revolucionária surgir. Repressão sexual e dominação política estariam, portanto, relacionadas. Assim, os níveis de liberdade ou repressão sexual estariam relacionados à dominação política, e a sexualidade passa a ser considerada, nesta linha de raciocínio, um elemento decisivo para se pensar a emancipação social.
Dentre os frankfurtianos, duas obras se destacam a respeito desta problemática: Dialética do Esclarecimento, 1947, de Adorno e Horkheimer; e Eros e Civilização, de 1955, de Marcuse. Ambas estavam amparadas em uma leitura mais ortodoxa das obras de Freud, ainda que as conseqüências para a práxis fossem divergentes entre elas, como veremos mais adiante. Em a Dialética do Esclarecimento, os autores utilizam o conceito freudiano de inconsciente para explicação de fenômenos sociais como indústria cultural, antissemitismo, bem como problematizam os limites e as possibilidades do projeto iluminista do esclarecimento. Em Eros e Civilização, Marcuse toma como base o conceito freudiano de pulsão para analisar ao indivíduo reprimido e à civilização repressora (CASTRO; LIMA, 2014). A visão trágica de Freud a respeito dos rumos da civilização – seguindo o raciocínio de que civilização implica necessariamente repressão – estava presente nas conclusões de Adorno e Horkheimer. Em Marcuse, porém, o “Freud revolucionário” é resgatado e se vislumbra na práxis uma possibilidade


3 O próprio Freud escreveu uma carta de agradecimento a Horkheimer (JAY, 1986, p.154).

de emancipação por meio de, dentre outras coisas, da libertação sexual e da experiência estética (JAY, 1986, p.183).
A respeito deste problema, qual seja, das aproximações entre Marx e Freud, pode-se observar uma abordagem singular desta questão nas obras de Erich Fromm. O texto que segue tentará indicar as singularidades da metodologia freudo-marxista4 desenvolvida por Fromm.

Marx e Freud: a leitura de Erich Fromm



Em Beyond the Chains of Illusion. My Encouter with Marx and Freud, de 1962, traduzido em português por Meu encontro com Marx e Freud (1965), livro no qual Erich Fromm faz sua “autobiografia intelectual”, onde explica as razões que o levaram a se interessar por Marx e Freud, assim como também a tentativa de conciliar estas duas escolas de pensamento, escreve o autor que,

Perturbava-me profundamente as questões relacionadas com os fenômenos individuais e sociais, e ansiava por encontrar uma resposta. Tive-a nos sistemas de Freud e Marx. Mas fui também estimulado pelo contraste entre os dois e pelo desejo de resolver essas contradições. (FROMM, 1965b, p. 14, grifo nosso).

Devido aos limites deste trabalho, não entraremos em detalhes pessoais que teriam influenciado o autor a se interessar pelos autores acima citados. Detenhamo-nos, pois, em questões referentes à sua metodologia de análise, em especial acerca de sua interpretação das obras de Marx e de Freud e da conciliação que surge a partir dela.
Fromm fez parte do grupo de intelectuais ligados à “Escola de Frankfurt” nos primeiros anos de funcionamento desta Instituição, tendo contribuído decisivamente para as aproximações teóricas que resultaram no freudo-marxismo característico do Instituto, como foi afirmado anteriormente. Porém, no final da década de 1930, rompe os laços com o Instituto e, por conta de sua formação em psicanálise, passa a se dedicar ao trabalho clínico5 (JAY, 1986).
Esta aproximação com o trabalho clínico serviu como um “estímulo invalorable para su obra especulativa, estímulo del que carecieron los otros miembros del Institut”,



4 Termo utilizado por Rouanet (1986).
5 No texto que segue voltaremos a abordar a questão da saída de Erich Fromm e seus motivos.

segundo Jay (1986, p.158). De acordo com as palavras de Erich Fromm em Meu encontro com Marx e Freud,

No que se relaciona com minhas teorias psicológicas, tive um excelente ponto de observação. Por mais de trinta e cinco anos pratiquei psicanálise. Examinei minuciosamente o comportamento, as associações livres e os sonhos das pessoas a quem psicanalisei. Não há uma única conclusão teórica sobre a psique humana, neste livro ou nos outros que escrevi, que não se baseie numa observação crítica do comportamento humano, feita no decorrer de meu trabalho como psicanalista. (FROMM, 1965, p.15).

Essa experiência clínica fez com que Fromm, após dez anos de trabalho clínico, discordasse de alguns elementos do sistema freudiano de análise psicanalítica. Assim, essa interpretação não ortodoxa da obra de Freud lhe rendeu o rótulo de “revisionista”, acusação com a qual ele nunca concordou. Além de Fromm, outros ex-discípulos de Freud como, por exemplo, Wilhelm Reich e Carl Gustav Jung, eminentes psicanalistas, também foram chamados de revisionistas. A respeito do rótulo de revisionista, Erich Fromm se justificou em uma carta a Martin Jay em 1971.

No he dejado nunca el freudismo [...] a menos que se identifique a Freud con su teoria de la libido [...] Considero que el logro básico de Freud es su concepto del inconsciente, sus manifestaciones en la neurosis, los sueños, etc., la resistência y su concepto dinâmico de carácter. Estos conceptos han conservado para mí su importância básica em toda mi obra, y decir que porque rechacé la teoria de la libido he renunciado al freudismo es una declaración muy drástica posible solo desde el punto de vista del freudismo ortodoxo. Em cualquier caso, nunca renuncié al psicanálisis, nunca he querido formar una escuela própria [...] He criticado siempre la ortodoxia freudiana y los métodos burocráticos de la organización internacional freudiana, pero toda mi obra teórica está basada em lo que considero los hallazgos más importantes de Freud, com la excepción de la metapsicología. (JAY, 1986, p.157).

No texto que segue pontuamos, em linhas gerais, as principais críticas que Fromm faz a respeito das limitações do pensamento de Freud, motivo pelo qual ele foi chamado de revisionista. A primeira crítica ao pensamento de Freud, e talvez uma das que mais lhe causou divergências com outros psicanalistas, foi referente à importância excessiva que Freud teria dado à sexualidade, no sentido de interpretar todas as paixões humanas como motivadas por instintos sexuais. Assim, Fromm é um crítico do complexo de Édipo freudiano. Tal complexo, em linhas gerais, afirmava que todo homem teria desejos inconscientes de se relacionar sexualmente com a própria mãe e,

por conseqüência, também assassinar o próprio pai. Para exemplificar esse caso, Freud recorreu ao livro Rei Édipo, do grego Sófocles, no qual o personagem principal, Édipo, se casa com a mãe, por engano, e, sem o saber, acaba assassinando o pai. Daí o nome, complexo de Édipo. De acordo com Fromm, a ênfase à sexualidade na teoria de Freud acontecia porque ele estava preso ao “materialismo burguês” de sua época que buscava causas materiais – no caso da medicina, fisiológicas – no diagnóstico do comportamento humano. Sobre o materialismo burguês de Freud, lemos nesta obra que

[...] o dogma do materialismo burguês era o de seus mestres, especialmente o seu mais importante professor, von Brücke. Freud permaneceu sob forte influência do pensamento de von Brücke e do materialismo burguês em geral; e, sob tal influência, foi incapaz de conceber a existência de fortes poderes físicos dos quais não se pudesse demonstrar que tinham raízes fisiológicas específicas. (FROMM, 1980, p.12).

Além disso, houve críticas de Erich Fromm à teoria freudiana para além dos assuntos relacionados à sexualidade. Outra limitação do pensamento do criador da psicanálise foi o fato de ele estar preso ainda à “atitude burguesa e autoritária (patriarcal)” (FROMM, 1980, p.12), típica de seu tempo e de sua classe

Para ele [Freud], sociedade burguesa e sociedade civilizada eram sinônimos; e, embora reconhecesse a existência de culturas peculiares quem eram diferentes da sociedade burguesa, elas não passavam, em seu entender, de culturas primitivas, subdesenvolvidas. (FROMM, 1980, p.27).

Nesse sentido, Freud teria analisado características comportamentais típicas de seu contexto histórico e interpretado elas como comportamentos universalmente válidos. Como, por exemplo, no caso da dominação da mulher na sociedade patriarcal do século XIX, que foi analisado como um fenômeno universal: a mulher como um ser inferior ao homem. Como exemplificado na passagem,

Uma sociedade em que as mulheres fossem iguais aos  homens, em que estes não mandassem por causa de sua alegada superioridade fisiológica e física, era simplesmente inconcebível para Freud.  Quando John Stuart Mill, a quem Freud muito admirava, expressou suas idéias acerca da igualdade das mulheres, Freud escreveu numa carta: ‘Neste ponto, Mill está simplesmente doido’. (FROMM, 1980, p.12).

Além disso, quando Freud considerava as mulheres “essencialmente narcisistas, incapazes de amar e sexualmente frias” (FROMM, 1980, p.14), o que revela que o pensamento dele estava ainda preso aos padrões de comportamento de seu tempo.
Resta outro ponto a ser analisado nas críticas de Fromm ao pensamento de Freud. O primeiro afirma que o segundo, quando analisava seus pacientes, tinha como modelo padrão de sanidade o típico homem de sua classe: de classe média alta e moral burguesa. Por conseqüência, o paciente considerado são era aquele que se adequava ao comportamento padrão do burguês bem-sucedido da época. Mais uma vez, tomava um caso específico – no caso o comportamento de um homem típico de seu tempo e de sua sociedade – e transformava em padrão de validade universal.
Para além das críticas consideradas “revisionistas” do pensamento freudiano, Fromm também foi criticado pelo otimismo que tinha a respeito das possibilidades de emancipação social. Neste sentido, Fromm foi acusado de ter se convertido em uma Pollyanna: “[...] persona absurdamente optimista. Denominación tomada de una popular novela publicada en 1913, Pollyanna de Eleanor Porter, en la cual la protagonista insiste em dar siempre com el aspecto positivo de la realidad.” (JAY, 1986, nota de rodapé, p.173). Fromm não concordava com a denominação.
A respeito desse fato Jay (1986, p.174) considera que,


Es difícil, no obstante, leer sus obras últimas sin arribar a la conclusión de que, em comparación com Horkheimer y los otros miembros del círculo interior del Institut, quienes fueran abandonadas sus vacilantes esperanzas de las décadas de 1920 y 1930, Fromm estaba defendiendo uma posición más optimista.


O rompimento com o Instituto para Pesquisa Social da Escola de Frankfurt



Em 1939, Fromm rompe os laços com a Escola de Frankfurt. Dentre os motivos, o principal é a divergência teórica que ele tinha com os outros autores do Instituto a respeito de sua interpretação das obras de Freud – relatadas anteriormente neste artigo. Um ano depois, Fromm emigra para os Estados Unidos junto a um grupo de intelectuais europeus que fugiam do terror nazista da Alemanha. O contexto de sua emigração é relatado em Hobsbawm (1995, p.151):

O racismo nazista logo provocou o êxodo em massa de intelectuais judeus e esquerdistas, que se espalharam pelo que restava de um

mundo tolerante. A hostilidade nazista à liberdade intelectual quase imediatamente expurgou das universidades alemãs talvez um terço de seus professores. Os ataques à cultura “modernista”, a queima pública de livros “judeus” e outros indesejáveis, começaram quase com a entrada de Hitler no governo.

Neste sentido, Fromm, intelectual, politicamente posicionado à esquerda, e de religião judaica, tinha motivos para temer a expansão nazista que aconteceu rapidamente entre os anos de 1933-1939. Posteriormente, migraram-se também para os Estados Unidos: Horkheimer, Adorno, Marcuse, entre outros intelectuais europeus.
Nos EUA viveu boa parte de sua vida, lecionando em diversas Universidades de renome deste país e tendo uma destacada recepção pública de sua produção teórica (SCHAAR, 1965). É neste período que escreve suas obras mais conhecidas como O Medo à Liberdade (1941), Análise do Homem (1947), A Linguagem Esquecida (1951), A Arte de Amar (1956), A missão de Freud (1959), Conceito Marxista do Homem (1961), Meu Encontro com Marx e Freud (1961), Anatomia da Destrutividade Humana (1972) e Grandeza e Limitações do Pensamento de Freud (1979).
Em 1941, Erich Fromm escreve aquele que é talvez o seu livro mais lido Escape from Freedom, traduzido em português por O Medo à Liberdade. Neste livro percebemos um afastamento cada vez maior do freudismo ortodoxo e dos teóricos de Frankfurt. O Medo à Liberdade é também um marco da aproximação de Fromm às questões “existenciais”. Deste modo, o conceito de alienação de Marx ganhava um peso decisivo, como afirma Jay (1986, p.172): “La noción de alienación, que Fromm había encontrado tan sugestiva en los primeros escritos de Marx, estaba claramente en la raíz de su nuevo enfoque.
No prefácio de O Medo à Liberdade, Erich Fromm explica as razões que o motivaram a ter escrito este livro:

A tese deste livro é que o homem moderno, emancipado dos grilhões da sociedade pré-individualista que simulteneamente lhe davam segurança e o cerceavam, não alcançou a liberdade na acepção positiva da realização do seu eu individual: isto é, a manifestação de suas potencialidades intelectuais, emocionais e sensoriais. A  liberdade, não obstante haver-lhe proporcionado independência e racionalidade, fez com que ele ficasse sozinho e, por conseguinte, angustiado e impotente. Este isolamento é intolerável e as alternativas com que ele defronta são, seja a de escapar do peso dessa liberdade para novas dependências e para a submissão, seja para progredir para  a realização plena da liberdade positiva que se baseia na originalidade e individualidade do homem. (FROMM, 1968, p.10).

É por meio do conceito de “medo à liberdade” que Fromm procura explicar a adesão em massa dos alemães aos ideais nazistas.
Em O Medo à Liberdade, Fromm, sob influência de Freud, desenvolve seus próprios conceitos de estrutura de caráter do homem moderno, porém, sem recorrer a argumentos relativos à sexualidade. Assim, é por meio da análise desta estrutura de caráter que se pode perceber a conexão entre fatores individuais e sociais:

É finalidade deste livro analisar os fatores dinâmicos da estrutura de caráter do homem moderno que o levaram a querer desistir da liberdade nos países fascistas e que predominam de forma tão generalizada entre milhões de nossa própria gente. (FROMM, 1968, p.15).

A adesão em massa de indivíduos a crenças irracionais e violentas seria explicada nesta lógica de raciocínio: “A religião e o nacionalismo, assim como qualquer costume e qualquer crença, por mais absurdos e degradantes que sejam, desde que liguem o indivíduo a outros, são refúgios contra aquilo que o homem mais teme: o isolamento.” (FROMM, 1968, p.26).
As obras posteriores de Erich Fromm seguem a linha de pensamento traçado em Medo à Liberdade, marcando essa nova fase de seu pensamento. Uma característica deste estilo é a aproximação cada vez mais forte do autor com as correntes do humanismo Ocidental.
Além de Freud, outra importante referência para Fromm é a ciência social de Marx. Neste sentido, a leitura que Fromm faz da obra de Marx é uma leitura humanista do socialismo; assim como sua leitura de Freud que ressalta os aspectos humanistas de suas descobertas6.
Para ele, Marx e Freud além de grandes pensadores, foram também grandes humanistas:

Humanismo no sentido de que todo homem representa toda a humanidade, portanto, que não há nada de humano que lhe possa ser estranho. Marx apoiava-se nessa tradição, de que Voltaire, Lessing, Herder, Hegel e Goethe são alguns dos representantes mais destacados. Freud expressou seu humanismo principalmente no conceito de inconsciente. Supunha que todos os homens partilham dos mesmos anseios inconscientes e, portanto, podem compreender-se



6 Além disso, Fromm operava suas análises clínicas com base em um método que ele denominava psicanálise humanista ou psicologia humanista.

mutuamente, uma vez que se disponham a mergulhar no submundo do inconsciente. (FROMM, 1965, p.21-22).

Nesse sentido, o livro Manuscritos Econômicos e Filosóficos de Marx, por exemplo, é um dos livros que mais influenciaram Erich Fromm. Nos Manuscritos, podemos perceber o “jovem” Marx refletindo sobre a sociedade capitalista e a necessidade de superação deste sistema, tudo isto com um forte teor humanista que muito contrastava com a interpretação marxista hegemônica da época, fortemente influenciada pelo Komintern, a “Terceira Internacional”.
O Komintern foi uma instituição criada por Lênin para funcionar como um centro difusor do comunismo para os outros países. Após sua morte, porém, foi comandada por Josef Stálin (1878-1953), líder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, conhecido por sua postura ditatorial e autoritária. O Komintern agia como um grande partido que impunha subordinação aos partidos comunistas de outros países, em troca de apoio político e financeiro. A estratégia indicada aos outros países, especialmente aos países do capitalismo periférico, era o de desenvolvimento das forças produtivas: primeiro é preciso desenvolver a infraestrutura para que, então, a superestrutura possa se desenvolver. A tarefa principal do revolucionário, de acordo com Moscou, era a de contribuir para este desenvolvimento: seja fazendo alianças com as burguesias locais, seja por meio de uma industrialização forçada em regiões do capitalismo “atrasado” (HOBSBAWM, 1995).
Uma das conseqüências desta leitura “positivista-mecanicista” era que esse determinismo econômico serviu para justificar modelos políticos autoritários e violentos que, ao invés de conduzirem a um projeto político de emancipação humana, a uma sociedade mais justa e igualitária, a uma sociedade menos alienada, conduziram a sociedade num sentido contrário: ao autoritarismo, à subordinação e à diversas formas de alienação (FROMM, 1983, p.73).
Em Conceito Marxista do Homem, Fromm busca, pois, o resgate do marxismo humanista, assim como realiza a crítica aos regimes que se autodenominam como seguidores de Marx, mas que haviam alterado profundamente partes importantes de seu sistema teórico. Segundo Fromm (1983, p.9, grifo nosso) a “União Soviética [...] [é] um sistema de capitalismo de Estado conservador, e não a concretização do socialismo marxista”, assim como a China, que nega “pelos meios empregados, a emancipação do indivíduo que é a própria meta do socialismo”. Ou seja, ao agir desta forma, Fromm

pretende manter-se fiel à tradição marxista ao indicar que o modelo praticado por estes Estados não é coerente com a filosofia de Marx que, ao contrário desses regimes,

[...] representa um protesto contra a alienação do homem, contra sua perda de si mesmo e contra sua transformação em objeto; é um movimento oposto à desumanização e automatização do homem, inerente à evolução do industrialismo ocidental. Ela se mostra implacavelmente crítica para com todas as “soluções” para o problema da existência humana que tentam apresentar propostas negando ou mascarando as dicotomias intrínsecas da existência do homem. A filosofia de Marx tem suas raízes na tradição filosófica ocidental humanista, que se estende de Spinoza, através dos filósofos do iluminismo francês e alemão do século XVIII, até Goethe e Hegel, e sua essência mesma é a preocupação com o homem e com a realização de suas potencialidades. (FROMM, 1983, p.7).


Considerações finais



Em linhas gerais, foi por meio do materialismo histórico e do método dialético que Erich Fromm pôde compreender como funcionava o capitalismo: suas leis próprias, seu funcionamento e seu desenvolvimento. E no sistema freudiano encontrou as respostas para as “estranhas e misteriosas razões das reações humanas” (FROMM, 1965, p.9). A conciliação entre ambas as teorias aconteciam com base no humanismo que Fromm identificava em ambos os autores.
Fazendo um balanço sobre a importância desses autores, Fromm ressalta que: “[...] juntamente com Einstein, eles foram os arquitetos da era moderna [...], cada qual de sua forma singular, encerra elementos da mais alta arte, bem como da ciência, a mais alta expressão do anseio humano de entendimento, sua necessidade de saber.” (FROMM, 1965, p.16).
Porém, os dois autores não têm, segundo Fromm, uma importância simétrica com relação às suas contribuições ao conhecimento humano. Apesar de reconhecer grandezas na descoberta de Freud, escreve Fromm em sua autobiografia intelectual que: “Marx é uma figura de significação histórica com a qual Freud não pode sem mesmo ser comparado”, tendo desenvolvido um sistema de pensamento “de muito maior profundidade e alcance” do que o médico de Viena. (FROMM, 1965, p.17). Ainda assim, Fromm reconhece Freud como o fundador da “Psicologia verdadeiramente científica”, tendo dado “uma contribuição excepcional para a ciência do homem, cuja imagem alterou para todo o sempre.” (FROMM, 1965, p.17).

Desta conciliação surgem interessantes interpretações da sociedade moderna, assim como também duras críticas aos rumos do desenvolvimento econômico tanto dos países “socialistas” quanto dos países “do mundo livre”. Em suma, segundo Fromm, nem os países ditos socialistas nem os países capitalistas eram modelos que possibilitavam que os potenciais humanos se desenvolvessem plenamente. Na URSS, por exemplo, principal referência de modelo alternativo ao capitalismo, o indivíduo era controlado pela burocracia do partido comunista, e sua individualidade, anulada. No “mundo livre”, por outro lado, a mercantilização da vida fazia com que o cálculo fosse introjetado na subjetividade das pessoas, inclusive na consideração de suas relações afetivas; e o consumismo cada vez crescente era mantido por meio de ilusões difundidas pela propaganda em massa.
Sua experiência clínica como psicanalista lhe rendeu uma sensibilidade capaz de se atentar para as principais necessidades e os principais temores do ser humano enquanto indivíduo. Além disso, não deixou de fazer uma arguta crítica social à forma com que as principais potências econômicas de seu tempo estavam organizadas, bem como para o padrão de socialização que elas engendravam nos indivíduos. Deste modo, em uma dialética entre o micro (individual) e o macro (social), Fromm fez uma leitura original de seu tempo, cujo principal referencial teórico era a óptica humanista com que ele leu Freud e Marx.



REFERÊNCIAS


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CASTRO, E. M. A. de., LIMA, A. F. de. O freudismo e a teoria crítica. Revista de Psicologia, Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 108-123, jul./dez. 2014.

FROMM, E. Conceito marxista do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

FROMM, E. Grandeza e limitações do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

FROMM, E. Meu encontro com Marx e Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1965. FROMM, E. O mêdo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.
HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

JAPIASSÚ, H., MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. 4.ed.atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

JAY, M. La imaginación dialéctica: una historia de la escuela de Frankfurt. Madrid: Taurus Ediciones, 1986.

MATOS, O. C. F. A escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993.

ROUANET, S. P. Teoria crítica e psicanálise. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1986. 
SCHAAR, J. H. O mundo de Erich Fromm. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.