Mostrando postagens com marcador Ser humano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ser humano. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de julho de 2019

QUEM É HOMEM?



QUEM É HOMEM? *

Erich Fromm

A pergunta “Quem é homem?” leva-nos diretamente ao âmago do problema. Se o homem fosse uma coisa, então poderíamos perguntar o que ele é e defini-lo do modo que definimos um objeto na natureza ou um produto industrial. Mas o homem não é uma coisa e não pode ser definido do mesmo modo que definimos uma coisa. Apesar disso, entretanto, o homem é frequentemente visto como uma coisa. É descrito como um operário, um gerente de fábrica, um médico, etc. Mas tais descrições nos dizem apenas qual é a função social de um indivíduo. Em outras palavras: o homem é definido em termos de seu lugar na sociedade.

O homem não é uma coisa; é um ser vivo envolvido num processo contínuo de desenvolvimento. Em cada ponto de sua vida, ele ainda não é o que pode ser e o que ainda pode vir a ser.

Embora o homem não possa ser definido do modo que definimos uma mesa ou um relógio, ele não foge inteiramente à definição. Podemos dizer mais sobre ele do que não é uma coisa mas um processo vivo, O mais importante aspecto da definição de homem é que seu pensamento pode ir muito além da satisfação de suas necessidades físicas. Para ele, pensar não é – como para um animal – simplesmente um meio de obtenção de bens desejados; é também um meio de exploração da realidade do seu próprio ser e do mundo à sua volta, independentemente de suas simpatias e antipatias. Em outras palavras: o homem não só tem inteligência, o que os animais também possuem, mas tem ainda razão, a qual ele pode usar para perceber a verdade. Quando o homem se deixa guiar por sua razão, atua de acordo com os seus melhores interesses como ser intelectual e físico.

Mas sabemos por experiência que muitas pessoas, cegas pela cobiça e a vaidade, não atuam racionalmente em suas vidas privadas. Pior ainda, as ações de nações são guiadas ainda menos pela razão, porque os demagogos estão sempre a postos para fazer o cidadão esquecer que levarão sua cidade e seu mundo à ruína se der crédito aos demagogos. Muitas nações caminharam irremediavelmente para a destruição por não terem logrado se libertar das emoções irracionais que estavam determinando seu comportamento e por não terem aprendido o caminho da razão. A tarefa crucial que os profetas do Antigo Testamento realizaram não foi, como pensa muita gente, predizer o futuro. Foi proclamar a verdade e, assim, sugerir indiretamente quais seriam as consequências futuras das ações presentes das pessoas.

Como o homem não é algo que possamos descrever desde fora, por assim dizer, temos que recorrer à nossa própria experiência pessoal como seres humanos para defini-lo. Portanto, a pergunta “Quem é homem?” obriga-nos a indagar, “Quem sou eu?”. Se queremos evitar o erro de tratar o homem como uma coisa, a única resposta que podemos dar à pergunta “Quem sou eu?” é: “um ser humano”.

A maioria das pessoas nunca tomou conhecimento de sua identidade como ser humano. Elas criam toda a espécie de imagens ilusórias de si mesmas, suas qualidades e sua identidade. Responderão frequentemente à nossa pergunta como “Sou professor”, “Sou operário”, “Sou médico”. Mas essa informação sobre o trabalho de uma pessoa nada nos diz sobre essa pessoa e não contém qualquer pista para ajudar-nos a responder à pergunta “Quem é ele?”, “Quem sou eu?”.

Neste ponto, deparamo-nos ainda com uma outra dificuldade. Todos temos uma certa orientação social, moral e psicológica. Quando e como sei se uma direção que alguém tomou será sua direção permanente ou se alguma experiência poderosa será capaz de fazê-la mudar de orientação? As pessoas atingirão um ponto em que estão fixadas tão firmemente em seus rumos que se posa corretamente dizer delas que são quem são e nunca mudarão? Estatisticamente pode ser possível dizer isso de muita gente.

Mas poderemos dizê-lo a respeito de cada pessoa até o dia de sua morte, e poderemos dizê-lo se considerarmos que talvez ela mudasse se tivesse vivido mais tempo?

Podemos definir o homem ainda de uma outra maneira. Ele é guiado por dois tipos de emoções e impulsos. Um tipo é de origem biológica e basicamente o mesmo em todas as pessoas. Inclui tudo o que se enquadra nos requisitos para a sobrevivência: a necessidade de satisfazer a fome e a sede, a necessidade de proteção, a necessidade de alguma forma de estrutura social e, num grau muito menor, a necessidade de realização sexual. As emoções do segundo tipo não têm raízes na biologia e não são idênticas para todas as pessoas. Essas emoções – como amor, alegria, solidariedade, inveja, ódio, ciúme, competitividade, cobiça, etc. – originam-se em diferentes estruturas sociais. No caso do ódio, temos que distinguir entre ódio reativo e endógeno.

Entendemos esses termos como paralelos à depressão reativa e endógena. O ódio reativo é uma resposta a um ataque ou uma ameaça a nós mesmos ou ao nosso grupo, e passa usualmente assim que o perigo passou. O ódio endógeno é um traço de caráter. Uma pessoa cheia dessa espécie de ódio está sempre buscando novos meios de passar ao ato, de concretizar esse ódio.

Ao invés das emoções de base biológica, as emoções socialmente geradas que acabei de mencionar são produtos de estruturas sociais específicas. Numa sociedade onde uma minoria exploradora domina uma maioria indefesa e empobrecida, existe ódio de ambos os lados. É mais do que óbvio que a maioria explorada sentirá ódio. Entretanto, o ódio da minoria dominante será alimentado pelo medo da vingança que os oprimidos posam um dia levar a efeito. Além disso, a minoria tem que odiar as massas a fim de sufocar seus próprios sentimentos de culpa e justificar sua exploração. O ódio não desaparecerá enquanto faltarem justiça e igualdade. Do mesmo modo, a verdade não prevalecerá enquanto as pessoas tiverem que mentir para justificar suas violações dos princípios de igualdade e justiça.

Algumas pessoas afirmam que princípios como igualdade e justiça são ideologias que se desenvolveram no curso da história e não fazem parte do equipamento básico, natural, do homem. Não posso dedicar-me aqui a uma refutação desse argumento, mas quero enfatizar um ponto que fala contra ele: o modo como as pessoas reagem se um grupo hostil viola os princípios de justiça e igualdade demonstra que as pessoas têm, no mais profundo de seu íntimo, um forte sentido desses valores. A sensibilidade da consciência humana em nenhuma parte é mais evidente do que no modo como a maioria das pessoas reage até às mais pequenas violações da justiça e da igualdade, desde que, é claro, não sejam elas próprias as acusadas de cometer tais violações; E assim é que a consciência encontra veemente expressão nas acusações que grupos nacionais fazem contra seus inimigos. Se as pessoas não possuíssem sensibilidade moral natural, como seria possível incitá-las a tão violentas paixões informando-as sobre as atrocidades que se alega terem sido cometidas por seus inimigos?

Ainda uma outra definição de homem diz que ele é um ser em que o governo instintivo do comportamento foi reduzido a um mínimo. O homem reteve, obviamente, certos elementos da motivação instintiva, como em sua necessidade de satisfazer a fome e de se reproduzir. Mas é somente quando a sobrevivência do indivíduo ou da comunidade está em jogo que o homem é primariamente motivado pelo instinto. A maioria dos impulsos que motivam as pessoas – ambição, inveja, ciúme, vingança – surge e é alimentada por constelações sociais específicas. O fato de que esses impulsos podem assumir prioridade, até mesmo sobre o instinto de sobrevivência, demonstra até que ponto eles podem ser poderosos. As pessoas estão frequentemente preparadas para sacrificar a vida a serviço tanto de seus ódios e ambições quanto de seus amores e lealdades.

O mais abominável de todos os impulsos humanos, a necessidade de usar uma outra pessoa para satisfazer os próprios fins, em virtude do próprio poder sobre essa pessoa, pouco mais é do que uma forma refinada de canibalismo. Esse impulso irrefreável para usar outros com vistas aos nossos próprios fins era desconhecido nas sociedades neolíticas. Para quase todos os que vivemos hoje é praticamente impossível imaginar que tivesse havido alguma vez um período histórico em que os homens não queriam explorar nem eram explorados. Mas esse tempo existiu. Nas primitivas culturas de caçadores-coletores e agrícolas, todos tinham o suficiente para viver e seria despropositado acumular bens. A propriedade privada não podia ainda ser investida como capital e usada como fonte de poder.

Essa fase do pensamento humano está refletida de forma simbólica no Antigo Testamento. Os filhos de Israel foram alimentados no deserto com maná. Havia maná em abundância e todos podiam comer quanto quisessem, mas o maná não podia ser armazenado. Tudo o que não fosse comido estragava-se e desaparecia no mesmo dia. Não adiantava especular sobre se viria logo ou não mais maná. Mas bens como cereais ou fermentas não desaparecem. Podem ser acumulados e dar poder àqueles que possuem maior quantidade de tais bens. Somente quando os excedentes começaram a ultrapassar um certo limite é que se tornaram vantajosos para a classe dominante, a fim de exercer o poder sobre outras classes e obrigá-las a executar trabalhos para os seus senhores, aceitando como seu quinhão o estritamente mínimo necessário à existência. O triunfo do Estado patriarcal fez dos escravos, trabalhadores e mulheres as principais vítimas da exploração.

Somente quando o homem deixar de ser um artigo de consumo para o seu “semelhante” mais forte, poderá o nosso período canibalístico, pré-histórico, terminar, e a nossa história verdadeiramente humana começar. Para que se efetue tal mudança, teremos que adquirir plena consciência de até que ponto são criminosos os nossos modos e costumes canibalísticos. Mas até a plena consciência permanecerá ineficaz se não for acompanhada de um remorso igualmente abrangente.

O remorso é mais do que sentirmo-nos meramente arrependidos a respeito de algo. O remorso é uma emoção poderosa. Uma pessoa com remorsos sente verdadeira repulsa por si mesma e pelo que fez. O remorso e a vergonha que o acompanha são as únicas emoções humanas que podem impedir que velhos crimes sejam repetidos continuamente. Onde não há remorso pode surgir a ilusão de que não foram cometidos crimes. Mas onde encontramos qualquer remorso genuíno? Os israelitas sentiram remorso pelo genocídio que perpetraram contra as tribos de Canaã? Os americanos sentem remorso pelo extermínio quase completo dos índios? Durante milênios o homem tem vivido num sistema que alivia o vencedor de remorso porque equipara poder e direito. Cada um de nós deveria confessar plenamente os crimes que nossos antepassados, nossos contemporâneos ou nós mesmos cometemos, diretamente ou através de omissão quando deveríamos protestar. Devemos confessar esses crimes abertamente, publicamente, em forma ritual, por assim dizer. A Igreja católica romana oferece ao indivíduo a oportunidade de confessar seus pecados e deixa que a voz da consciência seja ouvida. Mas a confissão individual não é bastante, porque não envolve os crimes que são cometidos por um grupo, uma classe, uma nação ou, de suma importância, por um Estado soberano, o qual não está sujeito aos ditames da consciência individual. Enquanto formos relutantes em fazer “confissões de culpa nacional”, continuaremos adotando os nossos velhos hábitos, mantendo os olhos abertos para os crimes dos nossos inimigos, mas permanecendo cegos para os crimes do nosso próprio povo.

Como podem os indivíduos começar a obedecer aos ditames da consciência de um modo sério quando nações, que professam ser guardiãs da moralidade, agem sem consideração alguma pela consciência? O que inevitavelmente se segue é que a voz da consciência é silenciada em cada ocasião, pois a consciência é não menos divisível do que a verdade. Se a razão humana pretende tornar-se um guia efetivo para as nossas ações, ela não pode ser dominada por emoções irracionais. A inteligência continua sendo inteligência, mesmo quando devotada a fins perversos. A razão, porém, a nossa percepção consciente da realidade tal como é e não como gostaríamos de vê-la a fim de podermos explorá-la para os nossos próprios fins – a razão, nesse sentido, só pode ser eficaz na medida em que pusermos de lado as nossas emoções irracionais, isto é, na medida em que, como seres humanos, nos tornarmos verdadeiramente humanos e os impulsos irracionais deixarem de ser a principal força motivadora subjacente em nossas ações.

Isso leva-nos à questão seguinte: que impulsos são necessários à sobrevivência da espécie humana? A agressão e a destrutividade podem ajudar um grupo a erradicar um outro e assim assegurar sua própria sobrevivência, mas esses impulsos assumem um significado diferente se os considerarmos no contexto da humanidade como um todo. Se a agressividade se propagasse à população humana inteira, culminaria não só na destruição de um grupo ou outro, mas, em última instância, na erradicação de toda a espécie humana. No passado, tal pensamento não se relacionava com a realidade e consistia meramente em especulação ociosa. Hoje, o nosso amor à vida atingiu seu ponto mais baixo. A destruição da humanidade como um todo é uma possibilidade concreta, porque dispomos hoje de meios de autodestruição maciça e porque brincamos realmente com a ideia de utilizá-los. Hoje, temos de compreender que o princípio de sobrevivência dos mais aptos – a irrestrita vontade de poder de Estados soberanos – pode resultar na destruição da humanidade inteira.

No século XIX, Emerson disse: “As coisas estão na sela e cavalgam a humanidade”. Hoje podemos dizer: “O homem fez das coisas seus ídolos e o culto desses ídolos pode destruí-lo”.

Dizem-nos repetidamente não haver limites para a maleabilidade dos seres humanos e, à primeira vista, isso parece ser verdadeiro. Um exame do comportamento humano através dos tempos mostra-nos não existir praticamente nenhum ato, do mais nobre ao mais vil, de que o homem não seja capaz e não tenha realmente realizado. Mas tese da maleabilidade dos seres humanos sofre restrições. Qualquer comportamento que não sirva ao crescimento de uma pessoa, ao seu progresso no sentido da autorrealização, tem seu alto preço. O explorador teme o explorado. O homicida teme o isolamento a que suas façanhas o condenam, mesmo que o isolamento não assuma a forma de isolamento na prisão. O destruidor teme sua própria consciência. O consumidor sem alegria teme viver sem estar verdadeiramente vivo.

Implícita na afirmação que o homem é infindavelmente maleável está a possibilidade que ele possa estar vivo, do ponto de vista fisiológico, mas mutilado num sentido humano. Tal pessoa será infeliz. Não experimentará nenhuma alegria. Estará repleta de amargura, e a amargura a tornará destrutiva. Somente se ela puder libertar-se desse círculo vicioso reabrirá a possibilidade para a alegria. Se pusermos de lado condições patológicas congênitas, podemos dizer que os seres humanos são psiquicamente saudáveis ao nascer. Eles só se incapacitam nas mãos de outros que querem exercer total controle sobre seus semelhantes, que odeiam a vida e que não suportam ouvir risos de alegria. Se uma criança fica então mutilada, eles sentem-se justificados em sua atitude hostil para com essa criança e consideram sua hostilidade uma consequência do comportamento doentio da criança, não sua causa.

Por que quereria alguém fazer de outrem um mutilado? A resposta a essa pergunta reside no que eu disse a respeito do canibalismo que ainda está presente hoje em nossa sociedade. Uma pessoa psiquicamente mutilada pode ser mais facilmente explorada por uma forte. A pessoa forte pode revidar; a fraca não pode. Ela está à mercê das pessoas malévolas no poder. Quanto mais um grupo dominante pode converter em mutilados psíquicos aqueles a quem domina, mais fácil é para ele explorar seus subordinados, usando-os para promover seus próprios fins.

Por ser o homem dotado de razão, ele pode analisar criticamente sua experiência e discernir o que promove seu desenvolvimento e o que o impede. Trabalha para alcançar o mais harmonioso crescimento possível de todos os seus poderes mentais e físicos, tendo por meta final a realização do bem-estar. O oposto do bem-estar é a depressão, como demonstrou Spinoza. Isso sugere que a alegria é um produto da razão e a depressão é o que resulta de um modo incorreto de vida. Isso encontra a mais clara das confirmações no Antigo Testamento, onde é interpretado como grave pecado por parte dos israelitas que suas vidas sejam desprovidas de alegria, ainda que vivam no meio da abundância.

Os pressupostos básicos da sociedade industrial estão em conflito com o bem-estar humano. Quais são esses pressupostos? O primeiro pressuposto básico é que a natureza tem de ser controlada. Mas a sociedade pré-industrial não controlou também a natureza? É claro que sim; caso contrário, o homem já teria morrido de fome há muito tempo. Mas o modo como controlamos a natureza na sociedade industrial é distinto de como as sociedades agrícolas o fizeram. Isso é particularmente verdadeiro a partir do momento em que a sociedade industrial passou a usar a tecnologia para controlar a natureza. A tecnologia usa a capacidade de pensar do homem para produzir coisas. É o substituto masculino do ventre feminino. Por isso é que no começo do Antigo Testamento se descreve como Deus criou o mundo através do Verbo. No mais antigo mito babilônico da criação, é a Grande Mãe quem gera o mundo.

O segundo pressuposto básico da sociedade industrial é que os seres humanos podem ser explorados por meio da força, recompensas ou – com maior frequência – uma combinação de ambas.

O terceiro pressuposto é que a atividade econômica tem que ser lucrativa. Na sociedade industrial, o motivo de lucro não é, primordialmente, uma expressão de ganância pessoal, mas antes, um teste para a correção do comportamento econômico.

Não produzimos bens para serem usados, embora a maioria dos bens tenha que ter algum valor utilitário se quiserem ser vendáveis. Produzimos bens para obter lucro. O resultado final de minha atividade econômica tem que ser que ganho mais do que tenho de gastar para a produção ou aquisição de bens comerciáveis. É um ero comum representar o motivo de lucro como um traço psicológico pessoal, peculiar das pessoas gananciosas. O desejo de lucro pode, é claro, ser apenas isso, mas tal noção do motivo de lucro não caracteriza a norma típica numa sociedade industrial moderna. O lucro é simplesmente uma prova de comportamento econômico correto e, por conseguinte, um critério para a competência nos negócios.

Um quarto traço, que é uma característica clássica das sociedades industriais, é a competição. A história mostrou, porém, que como resultado da crescente centralização e das dimensões de algumas empresas – e como resultado, também, da ilegal mas, não obstante, praticada fixação de preços – a competição entre grandes companhias deu lugar à cooperação. Onde existe competição, é mais provável que ocorra entre duas pequenas lojas de varejo do que entre grandes organizações industriais. Em toda a nossa moderna ordem econômica, inexistem vínculos emocionais entre vendedor e comprador. Em épocas antigas, havia uma relação especial entre um comerciante e seu freguês. O comerciante estava interessado em seu freguês e a venda era mais do que uma transação financeira. O negociante sentia uma certa satisfação em vender à sua clientela um artigo que era útil e atraente. Isso ainda acontece hoje, é claro, mas é a exceção e está limitado principalmente a pequenas lojas de um tipo antiquado. Numa dispendiosa loja de departamentos, os vendedores sorriem polidamente. De um modo vulgar, põem os olhos indiferentemente no espaço. Não precisaria assinalar que o sorriso na loja cara é falso e faz parte das despesas gerais refletidas nos preços mais elevados.

O quinto ponto que quero mencionar é que a capacidade de simpatia reduziu-se muito no nosso século. E deveria talvez acrescentar que a capacidade de sofrimento encolheu com ela. Não quero dizer com isso, é claro, que as pessoas sofrem hoje menos do que era costume. Mas encontram-se tão alienadas de si mesmas que já não possuem plena consciência de seu sofrimento. Tal como alguém com uma dor física crônica, elas acabam aceitando seu sofrimento como um dado normal e só o percebem quando ele aumenta além de sua intensidade usual. Mas não deveríamos esquecer que o sofrimento é a única emoção que parece ser verdadeiramente comum a todos os seres humanos, na verdade, talvez, a todos os seres sencientes. Por essa razão, uma pessoa sofredora que reconhece até que ponto o sofrimento é generalizado pode sentir o consolo da solidariedade humana.

Existem muitas, inúmeras, pessoas que nunca conheceram a felicidade. Mas não existe uma só que nunca tenha sofrido, por mais obstinadamente que tenha lutado para reprimir sua própria consciência do sofrimento. A simpatia é inseparável do amor à humanidade. Onde não há amor não pode haver simpatia nem compaixão. A indiferença é o oposto da compaixão e podemos descrever a indiferença como um estado patológico com tendências esquizóides. O que passa por ser amor por um outro individuo prova, com frequência, não ser mais do que dependência dessa pessoa. Quem ama somente uma pessoa não ama realmente ninguém.



* FROMM, Erich. Do amor à vida. Palestras radiofônicas organizadas por Hansd Jürgen Schultz. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.


sábado, 13 de abril de 2019

O Ser Humano da Sociedade Capitalista na concepção de Erich Fromm



O Ser Humano da Sociedade Capitalista
na concepção de Erich Fromm

Edmilson Marques*

Resumo

A proposta deste texto é buscar na psicanálise pensada e desenvolvida por Erich Fromm elementos para se pensar o ser humano da sociedade capitalista. Erich Fromm, dentre a maioria dos psicanalistas existentes, desde Freud, procurou desenvolver suas pesquisas e reflexões a partir da “psicanálise humanista”, oferecendo, assim, recursos heurísticos fundamentais para se pensar a vida na sociedade. Nesse sentido, propomos analisar primeiramente o seu método de análise, a partir do qual acreditamos ser fundamental para compreender o procedimento teórico/metodológico que utilizava para pensar os temas por ele abordados, e, nesse sentido, encontrar o caminho a ser percorrido na busca em seu pensamento da seguinte questão: como abordar a partir de seu ponto de vista, o ser humano da sociedade capitalista? Enfim, propomos uma avaliação da própria teoria de Fromm, apontando suas principais contribuições.
Palavras Chaves: Erich Fromm, Ser humano, Capitalismo.


A proposta com este texto é buscar na psicanálise pensada e desenvolvida por Erich Fromm elementos para se pensar o ser humano[1] da sociedade capitalista. Erich Fromm, dentre a maioria dos psicanalistas existentes, desde Freud, procurou desenvolver suas pesquisas e reflexões a partir da “psicanálise humanista”. Seu objetivo era oferecer uma ferramenta para compreender o ser humano a partir da sua relação com sociedade onde vive. Nesse sentido, percebemos neste pensador uma contribuição fundamental para os indivíduos pensarem a própria vida e a vida social que onde está inserido. Diferentemente da psicanálise instrumentalista que concebe esta como uma ferramenta a ser utilizada apenas por aqueles que são habilitados para tal, ou seja, apenas por especialistas. É nesse sentido que Fromm tem se tornado num dos principais estudiosos da psicanálise e referência para vários pensadores.
Iniciaremos, portanto, pela compreensão do seu método de análise, a partir do qual acreditamos compreender a referência fundamental que Fromm utilizava para pensar os temas por ele abordados, e, nesse sentido, encontrar o caminho a ser percorrido na busca em seu pensamento da seguinte questão: como abordar a partir de seu ponto de vista, o ser humano da sociedade capitalista?
Erich Fromm percebeu que Freud ofereceu uma grande contribuição para a humanidade ao criar a psicanálise e tomou seus estudos como uma das referências fundamentais para se pensar o ser humano. A principal descoberta de Freud, segundo Fromm, foi perceber “a irracionalidade do homem e do caráter inconsciente das forças irracionais no seu interior” (Fromm, 1992, p. 32). Fromm (1965, p. 121) ressalta que
A grande descoberta de Freud, a de uma nova dimensão da realidade humana, o inconsciente, é um elemento de um movimento orientado para a reforma do homem. Mas essa mesma descoberta atolou-se no caminho de maneira fatal. Foi aplicada a um pequeno setor da realidade, aos impulsos libidinosos do homem e seu recalque, mas pouco ou nada à realidade mais ampla da existência humana e aos fenômenos sociais e políticos.
            Fromm não tomava as reflexões de Freud de forma dogmática e apaixonada. Percebeu que Freud ofereceu uma contribuição fundamental para a compreensão do ser humano com a descoberta do inconsciente, porém, não se limitou a apenas reproduzir o que foi sistematizado por ele, percebendo além da contribuição, os limites de sua teoria. Fromm observou que os principais pontos de sua teoria estão associados “ao período histórico no qual ele trabalhou”[2]. E seus “defeitos, evidenciam a marca da personalidade de seu fundador” (Fromm, 1965, p. 07). A meta de Freud era fundar um movimento pela libertação ética do homem, uma nova religião secular e científica para uma elite que deveria orientar a humanidade (Fromm, 1965, p. 116), mas, não conseguiu oferecer uma análise que possibilitava ao próprio ser humano, se “libertar das forças irracionais e inconscientes de seu interior” (Fromm, 1992, p. 33).
            Fromm (1992) coloca que um dos principais limites da psicanálise desenvolvida por Freud advém da influência de seus professores (Helmholtz, Dubois e Brücke), os quais defendiam a aplicação do método do materialismo mecanicista. E depois de Freud a maior parte dos psicanalistas “têm-se aplicado as teorias freudianas a material clínico, sempre com a tendência para provar que Freud estava certo, e pouco se incomodando com outras possibilidades teóricas” (Fromm, 1965, p. 118), conseqüência da idolatria realizada pela maioria dos psicanalistas à teoria freudiana dificultando assim, que estes fossem possibilitados de realizar a crítica da teoria de Freud e assim contribuir com avanço e desenvolvimento das reflexões já esboçadas e sistematizadas por ele.
            Foi nesse sentido que Fromm propôs uma “revisão dialética da psicanálise” retomando os pontos principais da teoria de Freud. Procurou “preservar as descobertas de Freud, substituindo, porém, sua filosofia mecanicista-materialista por uma humanista” (Fromm, 1992, p. 11). Nesse sentido, “a renovação criativa da psicanálise só é possível se superar seu conformismo positivista e tornar-se de novo uma teoria crítica e desafiante dentro do espírito do humanismo radical” (Fromm, 1992, p. 38). É a partir do desenvolvimento desta sua proposta de rever a psicanálise tal como estava sendo moldada nos pressupostos da metodologia mecanicistas que Fromm oferece uma ampla contribuição para a compreensão do ser humano que está fadado a viver no capitalismo.
A revisão dialética segue duas abordagens. Uma, que reexamina os dados de Freud e as conclusões teóricas à luz de dados adicionais; examina uma nova estrutura filosófica e mudanças sociais que ocorreram nas últimas décadas (Fromm, 1992, p. 40).

            Para este estudo focalizaremos esta segunda abordagem na qual está o fundamento de sua pesquisa, e por ser esta o objetivo a ser alcançado com o desenvolvimento da primeira (a revisão dos dados de Freud e de suas conclusões teóricas). É a partir desta discussão que elabora a sua concepção de “inconsciente social”. Para Fromm o inconsciente social são
As áreas de repressão comuns à maioria dos membros de uma sociedade; os elementos habitualmente reprimidos são aqueles de cujo conteúdo a sociedade não deve permitir que seus membros tenha consciência, para que possa, com suas contradições específicas, funcionar com êxito” (Apud, Viana, 2002, p. 33).

            Para Fromm, “antes de mais nada, o homem é um ser social”. Seu pressuposto básico e que lhe serviu de referência para seus estudos é que “o homem não é uma máquina regulada por um mecanismo de “tensão-dimensão” deflagrado quimicamente, mas é uma totalidade e tem a necessidade de relacionar-se com o mundo” (1992, p. 11). A partir do ponto de vista de Fromm, e destes pressupostos básicos elencados anteriormente, conclui-se que o ser humano da sociedade capitalista é uma expressão da própria sociedade capitalista. Portanto, é na essência desta sociedade e no modo como esta está determinada a existir que, na concepção de Fromm, se encontra a resposta para se pensar o ser humano desta sociedade. Assim, a complexidade do capitalismo, será expressa no ser humano. A sua compreensão, portanto, deve “basear-se na análise das necessidades do homem resultantes das condições de sua existência” (Fromm, 1984, p. 34).
Para a compreensão do ser humano, no entanto, Erich Fromm propõe o estudo do caráter social[3]. O caráter social é o “núcleo da estrutura do caráter compartilhada pela maioria do dos indivíduos da mesma cultura, diversamente do caráter individual, que é diferente em cada um dos indivíduos pertencentes à mesma cultura” (Fromm, 1984, p. 79). Segundo Fromm o caráter social tem uma função que “consiste em moldar e canalizar a energia humana em uma determinada sociedade, para que esta possa continuar funcionando, continuamente” (1984, p. 80). E tratando-se do ser humano da sociedade capitalista, a sua compreensão deve partir da análise “dos elementos específicos do modo capitalista de produção” (Fromm, 1984, p. 83).
            Nesse sentido o ser humano do capitalismo passa a ser uma expressão das relações de produção e distribuição de mercadorias. Com o processo de mercantilização e burocratização das relações sociais os indivíduos vão sendo educados e moldados pela ação do capital e do Estado; a existir consequentemente de forma mercadológica e burocrática, formando assim, o caráter do ser humano desta sociedade. Nesse sentido, Fromm (1964, p. 88) expressa que “nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir: tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e de consumo”.
Por um lado então, o ser humano da sociedade capitalista será uma expressão dos interesses da classe a qual se pertence[4]. Partindo do pressuposto que os interesses dominantes numa determinada sociedade de classe é os interesses da classe dominante, verifica-se que na sociedade capitalista os interesses predominantes são os interesses da burguesia. Nesse sentido, o ser humano do capitalismo será constrangido a existir de acordo com estes interesses. E uma das características fundamentais destes interesses é a alienação[5]. Fromm toma a alienação como ponto central para analisar o caráter social do ser humano no capitalismo. Segundo ele, “uma das razões dessa sua escolha está no fato de esse conceito parecer a ele tocar o nível mais profundo da personalidade” (1984, p. 106). Para compreender o ser alienado Fromm parte da análise de uma das características fundamentais do capitalismo: o processo de quantificação e abstratificação[6].
            O processo de quantificação e abstratificação para Fromm perpassa o que Nildo Viana (2003; 2009) denominou de mercantilização e burocratização das relações sociais; nesse processo o ser humano passa a ser equiparado e transformado, ao mesmo tempo, numa mercadoria. As relações sociais passam a ser determinadas pela transformação do concreto em abstrato, mais especificamente pela coisificação do trabalho, da sua conversão em dinheiro (que representa a qualidade abstrata do trabalho concreto). Transforma o homem em uma coisa semelhante ao dinheiro, perdendo assim as suas qualidades humanas. E nesse sentido “cada homem pode ser representado por uma entidade abstrata, por cifras, e sobre essa base se calculam os incidentes econômicos, se prevêem as tendências e se tomam as decisões” (Fromm, 1984, p. 107). Esse processo vai ocorrer no capitalismo e formar o caráter social do ser humano do capitalismo.
A produção de mercadorias, por sua vez, se dá através de uma relação de exploração, onde o lucro é o desejo fundamental do capitalista, cujo caráter é a expressão do “desejo de adquirir propriedade; mantê-la, aumentá-la, isto é, obter lucro (Fromm, 1987, p. 82). Esse caráter tem sua expressão no que Fromm denomina “orientação mercantil”.
A concepção mercantilista do valor, o destaque dado ao valor de troca antes que ao valor de uso, levou a uma concepção semelhante de valor aplicável às pessoas e particularmente à própria pessoa de cada um. À orientação do caráter que tem suas raízes na impressão de que se é também uma “mercadoria” e do valor pessoal de cada um com um valor de troca, cognominei orientação mercantil (Fromm, 1960, p. 61).

            A orientação acumulativa é outra questão que vai determinar o ser humano da sociedade capitalista na concepção de Fromm. Essa orientação faz as pessoas terem pouca fé em qualquer coisa nova que possam conseguir do mundo exterior; sua segurança baseia-se na acumulação e na poupança, sendo que gastar é visto como uma ameaça (Fromm, 1960, p. 58). A orientação acumulativa acaba criando um ser humano que
Em suas relações com outros, a intimidade é uma ameaça: o alheamento ou a posse de uma pessoa significam segurança. O acumulativo mostra-se inclinado à desconfiança e tem um senso particular de justiça que virtualmente afirma: “O que é meu é meu e o que é seu lhe pertence” (Idem, p. 60).

            Orientado por esta forma de vida e de se relacionar com o outro, o indivíduo se aliena à mercadoria, e ao mesmo tempo é transformado em uma coisa, sendo educado a absorver os valores burgueses, e instigado a viver nesta sociedade dominada por pessoas cujo caráter é denominado pelo que Fromm denomina aspectos negativos, ou seja, “pessoas com falta de imaginação, mesquinhez, desconfiança, frieza, ansiedade, obstinação, indolência, pedantismo, obsessão e desejo de posse” (1984, p. 90-91).
Nesse sentido, os desejos das pessoas passam a ser referenciados por este caráter burguês. Fromm vai colocar que a existência do homem moderno perpassa pelo ter em detrimento do ser.
As pessoas são transformadas em coisas; suas relações umas com as outras assumem o caráter de propriedade [...] Mas a questão essencial não é tanto o que seja o conteúdo do eu, senão que o eu seja sentido como uma coisa que cada um possui, e que essa “coisa” seja a base de nosso sentido de identidade (Fromm, 1987, p. 82).
           
            Assim, na sociedade capitalista o ser humano “deixa de ser um homem, um ser humano vivente, deixa de ser um fim em si e torna-se um meio para os interesses econômicos de outro homem, ou de si mesmo” (Fromm, 1984, p. 92), torna-se uma “coisa”, um ser alienado, que segundo Fromm (1984, p. 115), é um ser humano que
Se sente como um estranho. Poder-se-ia dizer que a pessoa se alienou de si mesma. Não sente como centro de seu mundo, como criadora de seus próprios atos, tendo sido os seus atos e as conseqüências destes transformados em seus senhores, aos quais obedece e aos quais quiçá até adore. A pessoa alienada não tem contato consigo mesma, e também não o tem com nenhuma outra pessoa. Percebe a si e aos demais como são percebidas as coisas: com os sentidos e com o senso comum, mas, ao mesmo tempo, sem relacionar-se produtivamente consigo mesma e com o mundo exterior.

            No capitalismo o ser humano é determinado a viver de acordo com os interesses da classe dominante, reduzido a uma “coisa”, numa composição do capital, onde os cifrões passam a ser o determinante do seu pensamento e das suas ações. Neste mundo o ser humano que se entrega de corpo e alma à sua paixão pelo dinheiro passa a ser dominada pelo impulso ao dinheiro. O ser humano no capitalismo segue os valores burgueses da idolatria ao dinheiro e a tudo que deriva daí; é nesse sentido que Fromm relaciona a necessidade e existência dos ídolos na sociedade; “é um estranho de si mesmo, assim como lhe são estranhos seus semelhantes” (1984, p. 118). A perda do sentido humano vai ser generalizado e ser substituído pela coisificação do mundo.
Surge daí um mundo doentio, consequentemente, pessoas doentias. O ser humano deixa de ser o centro de si mesmo, e é levado a adorar o mundo das coisas. Esse sentimento determinado pelos valores axiológicos[7] vai se generalizar e ser dominante na sociedade, configurando assim o ser humano do capitalismo, onde o medo, problemas psíquicos, enfim, um mal estar constante será uma característica fundamental e constante em sua vida. Isso provoca a dominação da morte sobre a vida, como pode ser visto no crescente índice de suicídio e na generalização das guerras, da exploração e opressão social.
Bom, até aqui podemos perceber em Fromm a sua ampla contribuição para se pensar o ser humano como expressão dos valores axiológicos. Um ser humano moldado a existir à imagem e semelhança da criadora do capitalismo, a burguesia. Porém, para Fromm (1986, p. 138) “o homem[8] é definido em termos de seu lugar na sociedade”. Para ele “as mais belas, assim como as mais feias inclinações do homem, não são parte de uma natureza humana fixa e recebida biologicamente, mas provêm do processo social que forma o homem” (Fromm, 1983, p. 20). Em si tratando do ser humano da sociedade capitalista, antes de qualquer coisa, é integrante de uma determinada classe social. Nesse sentido, a patologia que domina o mundo é conseqüente do interesse desenfreado da classe dominante na busca pelo lucro, e a sociedade é constrangida a agir conforme esse interesse.
Contudo, a generalização do descontentamento social, proveniente deste mal estar ontológico do capitalismo, vai levar determinadas pessoas a questionarem esse modo de vida. As pessoas não são, como acreditam alguns ideólogos, uma folha em branco em que se determina o seu conteúdo. Nesse sentido, o ser humano do capitalismo, a partir da concepção de Fromm, de um lado vai ser aquele que conforma com a vida tal qual está posta a existir - conseqüência da sua posição de classe, que lhe possibilita o atendimento de suas necessidades básicas, a exemplo dos indivíduos que compõe a classe dominante - e, de outro será aquele que resiste ao próprio capitalismo, e busca por sua superação, a exemplo das classes oprimidas, em conseqüência do conflito proveniente do não atendimento às suas necessidades básicas.
O ser humano, mesmo dominado por forças exteriores que lhe orienta para uma forma de vida, é capaz de questioná-la, e transformá-la para uma orientação diferente desta que vem sendo estabelecida no capitalismo, que coloca em xeque o próprio ser humano em detrimento de sua coisificação. Esse processo Fromm denomina resistência, ou seja, o de tornar conscientes as necessidades reprimidas no inconsciente, e assim, buscar supera-las na prática. Mas, “o homem não é uma coisa; é um ser vivo envolvido num processo contínuo de desenvolvimento. Em casa ponto de sua vida, ele ainda não é o que pode ser e o que ainda pode vir a ser” (Fromm, 1986, p. 138). Voltemos agora àquela questão que colocamos no início deste texto, referente à principal descoberta de Freud destacada por Fromm do inconsciente. O inconsciente é o meio para alcançar o reconhecimento do ser humano, fundamentalmente, um ser humano que se encontra adormecido, porém, vivo, na sociedade capitalista.
Segundo Fromm (1992, p. 84) “o conhecimento do inconsciente torna-se um elemento essencial na busca-da-verdade”, e concebe a verdade como “o processo de remover ilusões, um passo na direção do desengano” (Idem). A questão é que numa sociedade dividida em classes sociais a consciência do indivíduo é uma expressão dos valores e interesses da classe que domina, valores axiológicos, inautênticos. O inconsciente, por sua vez é a expressão de necessidades inatas do ser humano, necessidades autênticas, básicas, que permite a sobrevivência do ser humano, que Fromm (1986) denomina requisitos para a sobrevivência, os quais numa sociedade de classe são reprimidos. Nesse sentido, o ser humano da sociedade capitalista na concepção de Fromm vive este conflito de viver em constante constrangimento de agir conforme os valores burgueses, e ao mesmo tempo, de querer expressar e viver na prática as suas necessidades básicas, autênticas. Assim, o querer viver na prática suas necessidades básicas, autênticas, torna-se para ele o seu objetivo final “de tornar-se plenamente humano e de ficar em união completa com o mundo” (Fromm, 1965b, p. 134), realizando finalmente o seu bem-estar.
Em Fromm compreende-se que o ser humano do capitalismo tenderá responder à posição que ocupa na sociedade, agindo contra a sua desumanização na busca por uma humanização do mundo, marchando em direção à superação das condições sociais que lhe oprime. Fromm (1977, p. 77) coloca que em toda a sua história o homem sempre reagiu
Com protesto contra condições que tornam demasiado drástico ou insuportável o desequilíbrio entre a ordem social e suas necessidades humanas. A tentativa para reduzir esse desequilíbrio e a necessidade de estabelecer uma solução mais aceitável e conveniente estão no cerne do dinamismo da evolução do homem na história. O protesto do homem surgiu não apenas devido ao sofrimento material; necessidade especificamente humana, são motivações igualmente forte para a revolução e para a dinâmica da mudança.

            Guiado e motivado pela superação de sua coisificação, de seu sofrimento, e das ilusões impregnada em sua consciência que se pode ver em Fromm o ser humano do capitalismo. E a condição para a superação destas ilusões que dominam sua consciência só é possível eliminando o mal que lhe causa. Portanto, sendo o ser humano um ser social, como afirma Fromm, é eliminando a sociedade que cria as ilusões (a sociedade de classe[9]) que se tem a possibilidade de se libertar dos grilhões que lhe aprisiona. Como coloca Fromm (1971, p. 74), recorrendo a Marx, “a exigência de renunciar a ilusões sobre a condição pessoal[10] de cada um é a exigência de renúncia às condições que necessitam de ilusões”.
            A questão da eliminação desta sociedade não se trata da eliminação da vida na Terra, embora isso possa ser pensado quando a referência é o interesse da burguesia, ou seja, defender e reproduzir os seus interesses levando esta idéia ao limite de colocar em risco a própria vida do ser humano. Diante desta sociedade criada pela burguesia “a destruição da humanidade como um todo é uma possibilidade concreta, porque dispomos hoje de meios de autodestruição maciça [...]” (Fromm, 1986, p. 142). Mas do ponto de vista da psicanálise humanista de Fromm, “o que importa hoje é preservar o mundo, mas para isso são necessárias certas modificações, e para essas modificações as tendências históricas terão de ser compreendidas e antecipadas” (Fromm, 1969, p. 222).
            Enfim, Erich Fromm oferece uma contribuição fundamental, a partir da psicanálise, para se pensar o ser humano da sociedade capitalista. A partir da base de seu pensamento teórico, do homem enquanto totalidade que sente necessidade de relacionar-se com o mundo, e acrescentamos, de ser construtor e transformador do mesmo, conclui-se que para ele “o homem define a sua humanidade em termos da sociedade com a qual se identifica” (Fromm, 1977, p. 72). Mesmo recorrendo à teoria da transformação de Marx, Fromm não avança no reconhecimento das classes sociais. Nesse sentido, o desenvolvimento da psicanálise desenvolvida por ele se torna uma necessidade, assim como ele fez com a teoria de Freud. Só assim torna-se possível perceber que no capitalismo o ser humano só pode ser pensado como sendo aquele que se identifica com esta sociedade, ou seja, o ser humano como integrantes das classes dominantes, e como aquele que não se identifica com esta sociedade e busca superá-la, os integrantes das classes exploradas e oprimidas, questão ausente na psicanálise de Fromm.





Bibliografia

FROMM, Erich. Análise do Homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1960.
_____________. A Arte de Amar. Belo Horizonte, Itatiaia, 1964.
_____________. A Crise da Psicanálise. Rio de Janeiro, Zahar, 1971.
_____________. A Descoberta do Inconsciente Social. São Paulo, Manole, 1992.
_____________. A Missão de Freud. Rio de Janeiro, Zahar, 1965.
_____________. A Revolução da Esperança. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
_____________. A Sobrevivência da Humanidade. Rio de Janeiro, Zahar, 1969.
_____________. Caráter Social de uma Aldeia: um estudo sociopsicanalítico. Rio de Janeiro, Zahar, 1972.
_____________. Do Amor à Vida. Rio de Janeiro, Zahar, 1986.
_____________. O Coração do Homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1965b.
_____________. O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1983.
_____________. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. São Paulo, Círculo do Livro, 1984.
_____________. Ter ou Ser?. Rio de Janeiro, LTC, 1987.
VIANA, Nildo. Erich Fromm e a Renovação da Psicanálise. No prelo, Revista Espaço Livre, disponível em http://espacolivre.sementeira.net/, 2010.
____________. Estado, Democracia e Cidadania. Rio de Janeiro, Achiamé, 2003.
____________. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia, Germinal, 2002.
____________. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. Aparecida-SP, Santuário, 2009.
____________. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.
____________. Universo Psíquico e Reprodução do Capital: ensaios freudo-marxistas. São Paulo, Escuta, 2008.




* Professor da Universidade Estadual de Goiás e doutorando em história pela Universidade Federal de Goiás.
[1] Na totalidade das suas obras Erich Fromm utiliza do termo “homem” para se referir ao “ser humano”. No entanto, aqui, optamos pelo termo “ser humano” para evitar as costumeiras confusões provenientes das interpretações ideológicas (a ideologia do gênero, por exemplo) que remetem a superação do preconceito sofrido pelas mulheres à superação das desigualdades entre os sexos (feminino e masculino), questão que pode ser observada com o próprio Fromm em “Ter ou ser?” na sua crítica ao sexismo na linguagem.
[2] Para ter acesso aos sete principais pontos elencados por Fromm da obra de Freud, ver Fromm (1992).
[3] Para uma leitura mais detalhada da teoria do caráter social, ver Fromm, 1972. Para uma crítica ao caráter social de Fromm, ver Viana (2008), o qual propõe o conceito de “mentalidade” expressando ser esse mais adequado do que aquele.
[4] No caso dos indivíduos proveniente das classes exploradas, a maior parte de seus interesses autênticos serão reprimidos e serão predominantes no seu inconsciente.
[5] Fromm usa o conceito de alienação no sentido de idolatria, veja, por exemplo, a análise sobre o ídolo que realiza em “Psicanálise da Sociedade Contemporânea”, diferentemente da abordagem marxista que concebe a alienação como uma relação social.
[6] Anteriormente Fromm havia abordado esta questão como burocratização e mercantilização.
[7] Para uma leitura mais aprofundada sobre a questão dos valores na sociedade moderna, mais especificamente os valores axiológicos e valores axionômicos, ver Viana, 2007.
[8] Uma questão que perpassa a concepção de Erich Fromm, é a sua constante utilização do termo “homem” num sentido generalizado. Embora, em várias obras deixe claro que pensa o homem como determinado a existir de acordo com a posição que ocupa na sociedade, não aprofunda esta questão e se limita à analisar o ser humano num sentido generalizado, homogêneo, não percebendo o ser humano como um ser integrante de determinadas classes sociais, o que lhe rendeu a crítica de Marcuse (1988) e a crítica de Nildo Viana (2010) que lhe caracterizou como “humanista abstrato” por partir “de uma concepção correta de natureza humana, mas que não chega a perceber a questão fundamental das classes sociais e das lutas de classes e por isso sua ética humanista também se revela limitada, tal como sua proposta de mudança social”.
[9]
[10] Embora assuma uma postura crítica ao capitalismo, Fromm muitas vezes reserva “ao indivíduo o processo de transformação pessoal sem a devida mudança social” (Viana, 2002, p. 32) o que lhe provocou a crítica de Marcuse (1988), percebida por Viana (2002), para o qual o “estilo de Fromm e sua solução, muitas vezes se aproxima ao do ‘poder do pensamento positivo’”.