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sábado, 14 de agosto de 2021

O Conceito Marxista do Homem - Novo livro disponibilizado de Erich Fromm



Essa obra de Fromm apresenta os Manuscritos de Paris (também conhecido como Manuscritos Econômico-Filosóficos), de Karl Marx, completo e ainda uma análise desse material por Erich e alguns anexos complementares. No seu extenso comentário, Fromm busca resgatar o verdadeiro Marx, a sua reflexão sobre alienação, a sua concepção humanista de comunismo, bem como mostra a deformação leninista e falsificação do socialismo na URSS, um verdadeiro capitalismo de Estado.

O livro apresenta uma maior aproximação de Fromm em relação a Karl Marx. Marx sempre foi uma referência no pensamento de Fromm, mas a confusão do seu pensamento com o pseudomarxismo gerava algumas interpretações equivocadas de Fromm, especialmente no que se refere ao problema da natureza humana e do socialismo, que o psicanalista alemão revê no seu longo texto de análise do escrito póstumo do fundador do marxismo. Nessa obra, Fromm reconhece a semelhança entre sua concepção de natureza humana e a de Marx, bem como o impacto disso na concepção de "socialismo" no teórico do comunismo. Apesar de sua interpretação dos Manuscritos ainda ter pontos problemáticos, como a questão da alienação (confundida com "idolatria"), Fromm faz uma análise que rompe com as más interpretações, especialmente as reformistas e leninistas, do pensamento de Marx.

Para acessar Clique Aqui.

sábado, 15 de maio de 2021

A Adulteração dos Conceitos de Marx - Erich Fromm



A Adulteração dos Conceitos de Marx 

Publicado na Revista Marxismo e Autogestão:

http://redelp.net/revistas/index.php/rma/article/view/591

MARX, MARXISMO, MARXISTAS

A Adulteração dos Conceitos de Marx

Erich Fromm*

 

 

 

 

 

Erich Fromm comenta aqui as deturpações das ideias de Marx efetivadas pelos meios oligopolistas de comunicação, professores, indivíduos em geral. Ele não aponta para uma análise do pseudomarxismo, tal como esboçará posteriormente. A preocupação básica de Fromm é com a emancipação humana através da síntese que ele busca efetivar entre marxismo e psicanálise. No entanto, algumas ressalvas precisam ser feitas ao seu projeto, especialmente sua interpretação do marxismo que desconsidera questões fundamentais como a luta de classes (que algumas vezes aparece, mas de forma secundarizada) e falta de uma compreensão da dinâmica do modo de produção capitalista. O presente texto, impulsionado pelo entusiasmo com a obra Manuscritos de Paris, de Karl Marx e o tema da alienação (o presente texto é um capítulo do livro O Conceito Marxista do Homem, que tem os Manuscritos como anexo), significa uma superação do equívoco interpretativo que o próprio Fromm apresentou em Psicanálise da Sociedade Contemporânea. A obra também efetiva uma crítica de elementos do capitalismo da época, sob o regime de acumulação conjugado, momento no qual a burocratização se amplia e é naturalizada, e as ideologias apontam para a reprodução e impossibilidade de mudança, de acordo com o paradigma reprodutivista. O capitalismo atual, no entanto, devido às lutas radicalizadas do movimento operário e estudantil do final dos anos 1960, se apropriou das críticas e substituiu o paradigma reprodutivista pelo subjetivista e se tornou moda valorar o indivíduo, a subjetividade, etc. Fromm não só combate as deformações do pensamento de Marx, como elementos do paradigma hegemônico e características do capitalismo oligopolista transnacional.

Uma das estranhas ironias da História é não haver limites para os erros de interpretação e as deturpações das teorias, mesmo numa época de acesso irrestrito às fontes; não há exemplo mais drástico desse fenômeno do que o acontecido com a teoria de Karl Marx nos últimos decênios. São constantes as referências a Marx e ao marxismo na imprensa, nos discursos de políticos, em livros e artigos escritos por respeitáveis cientistas sociais e filósofos; no entanto, com poucas exceções, parece que os jornalistas e políticos jamais viram sequer de relance uma linha escrita por Marx e que os cientistas sociais se satisfazem com um mínimo de conhecimento da obra dele. Aparentemente sentem-se a salvo em seu papel de peritos no assunto, visto como ninguém com poder e status no campo da pesquisa social contesta suas afirmações ignaras[1].

Dentre todas as incompreensões existentes, provavelmente a mais disseminada é a ideia sobre o “materialismo” de Marx. Alega-se ter sido opinião de Marx que a suprema motivação psicológica do homem é seu desejo de vantagem monetária e conforto, e que este anelo pelo lucro máximo constitui o principal incentivo em sua vida pessoal e na vida da espécie humana. complementando essa ideia, há a suposição igualmente difundida de ter Marx negligenciado o valor do indivíduo; dele não ter respeito nem compreensão das necessidades espirituais do homem, e de ter sido seu “ideal” a pessoa bem nutrida e bem vestida, porém, “sem alma”. Sustentou-se que as críticas feitas por Marx à religião equivaliam à negação de todos os valores espirituais, e isso pareceu bem mais evidente aos que julgam ser a crença em Deus a base de qualquer orientação espiritual.

Esta opinião acerca de Marx prossegue para examinar seu paraíso socialista como um lugar onde milhões de pessoas se submetem a uma burocracia estatal todo-poderosa, pessoas que renunciaram à sua liberdade, ainda que possam ter alcançado a igualdade, esses “indivíduos” materialmente satisfeitos perderam sua individualidade e foram devidamente transformados em milhões de robôs e autômatos uniformes, dirigidos por uma pequena elite de líderes mais bem alimentados.

Basta dizer, desde logo, que esta imagem popular do “materialismo” de Marx – sua tendência antiespiritual, seu desejo de uniformidade e subordinação – é inteiramente falsa. A meta de Marx era a emancipação espiritual do homem, sua libertação dos grilhões do determinismo econômico, sua reintegração como ser humano, sua aptidão para encontrar unidade e harmonia com seus semelhantes e com a natureza. a filosofia de Marx foi, em linguagem secular, não-deísta, um novo e radical passo à frente na tradição do messianismo profético; ela visava à plena realização da individualidade, exatamente o objetivo que presidiu o pensamento ocidental desde o Renascimento e a Reformar até a época bem avançado do século 19.

Este quadro, sem dúvida, deve chocar a muitos leitores, em face de sua incompatibilidade com as ideias acerca de Marx a que tem sido expostas. Antes de continuar para fundamentá-lo, porém, quero ressaltar a ironia existente no fato de que a descrição feita da meta de Marx e a do conteúdo de sua concepção do socialismo ajustarem-se quase exatamente à realidade da sociedade capitalista ocidental dos dias de hoje. A maioria das pessoas é motivada por um desejo de maiores ganhos materiais, conforto e aparelhos de toda sorte, e esse desejo só é restringido pelo desejo de segurança e de evitar os riscos. Elas ficam cada vez mais satisfeitas com uma vida regulamentada e dirigida, tanto na instância da produção quanto na do consumo, pelo Estado e grandes empresas e pelas respectivas máquinas burocráticas; elas chegaram a um grau de conformismo que eliminou a individualidade em grande parte. Elas são, para empregar a expressão de Marx, impotentes “homens-mercadoria” que servem à máquinas potentes. O próprio retrato do capitalismo de meados do século 20 é difícil de ser diferenciado da caricatura do socialismo marxista desenhada por seus opositores.

O que é ainda mais surpreendente é o fato de que as pessoas que acusam Marx mais amargamente de “materialista”, atacarem o socialismo por ser visionário ao não reconhecer que o único incentivo eficaz para o homem trabalhar reside em seu desejo de ganhos materiais. A ilimitada capacidade do homem para negar contradições flagrantes por meio de racionalizações, desde que lhe convenha, dificilmente poderia ser melhor demonstrada. As mesmíssimas razões alegadas como prova das ideias de Marx serem incompatíveis com nossa tradição religiosa e espiritual, e empregadas para defender nosso sistema atual contra Marx, são ao mesmo tempo usadas, pelas mesmas pessoas, para provar que o capitalismo corresponde à natureza humana, e, portanto, é bem superior a um socialismo “visionário”.

Procurei demonstrar a total falsidade desta interpretação de Marx, bem como que a teoria dele não admite a vantagem material como principal motivação do homem; que, além disso, a própria meta de Marx é libertar o homem da pressão das necessidades econômicas, de modo a poder ser completamente humano; que Marx está fundamentalmente interessado na emancipação do homem como indivíduo, na superação da alienação, na restauração da capacidade dele para relacionar-se inteiramente com seus semelhantes e com a natureza; que a filosofia de Marx constitui um existencialismo espiritual em linguagem secular e, por força desta qualidade espiritual, opções à prática materialista e à tenuamente disfarçada filosofia materialista de nossa época. A meta de Marx, o socialismo baseado em sua teoria do homem, é essencialmente o messianismo profético expresso em linguagem do século 19.

Como pode, então, a filosofia de Marx ser tão completamente mal interpretada e deformada? São diversas as razões. A primeira e mais óbvia é a ignorância. Afigura-se que, não sendo esses assuntos ensinados nas universidades e, por conseguinte, não sujeitos a exames, dão margem de “liberdade” para todos pensarem, escreverem e falarem como bem entendem e sem qualquer conhecimento de causa. Não há propriamente autoridades consagradas aptas a insistir no respeito pelos fatos e na verdade. Daí todos acharem-se no direito a falar de Marx sem o haverem lido ou, pelo menos, sem o haverem lido suficientemente para obter uma ideia de seu sistema de pensamento, deveras complexo, intrincado e sutil. Em nada melhorou a situação no fato de os Manuscritos Econômicos e Filosóficos, a principal obra filosófica de Marx dedicada a seu conceito do homem, de alienação, de emancipação, etc., não terem sido senão até bem pouco traduzidos para o inglês[2], e por isso serem desconhecidas do mundo de língua inglesa algumas de suas ideias. Este fato, contudo, não é de forma alguma suficiente para explicar a ignorância predominante: primeiro, porque, não ter sido essa obra de Marx traduzida antes par ao inglês, é em si mesmo tanto sintoma como causa da ignorância; segundo, porque a orientação principal do pensamento filosófico de Marx é bastante clara nos trabalhos anteriormente publicados em inglês para evitar a adulteração ocorrida.

Outra razão consiste em terem os comunistas se apropriado da teoria de Marx e tentado convencer o mundo de que sua prática e teoria obedeciam às ideias dele. Malgrado o oposto seja verdade, o Ocidente aceitou as alegações da propaganda deles e admitiu que a posição de Marx corresponde à opinião e à prática russas. Não obstante, os comunistas russos não são os únicos culpados da má interpretação de Marx. Embora o desprezo brutal dos russos pela dignidade individual e pelos valores humanistas seja, de fato, específico deles, o erro de interpretar Marx como propositor de um materialismo econômico-hedonista também foi compartilhado por muitos dos socialistas anticomunistas e reformistas. Não é difícil perceber as razões disso. Conquanto a teoria de Marx fosse uma crítica ao capitalismo, muitos de seus adeptos estavam entranhadamente impregnados do espírito do capitalismo que interpretaram o pensamento de Marx nas categorias econômicas e materialistas vigentes no capitalismo contemporâneo. Com efeito, apesar dos comunistas soviéticos, assim como os socialistas reformistas, acreditarem serem inimigos do capitalismo, conceberam o comunismo – ou socialismo – segundo o espírito do capitalismo. Para eles, o socialismo não é uma sociedade humanamente diferente do capitalismo, mas antes, uma forma de capitalismo em que a classe operária tivesse atingido uma posição superior; ele é, como Engels certa vez observou ironicamente, “a sociedade de hoje sem seus defeitos”.

Até aqui abordamos razões racionais e realistas para a deturpação das teorias de Marx. É inegável, contudo, haver também razões irracionais que ajudaram a produzir tal distorção. A Rússia soviética tem sido encarada como a própria encarnação de todo o mal; daí terem suas ideias assumido a qualidade do que é diabólico. Tal e qual em 1917, quando dentro de relativamente pouco tempo o Kaiser e os “hunos” foram olhados como a corporificação do mal, e até a música de Mozart se tornou parte do território do diabo, assim também os comunistas tomaram o lugar do diabo e suas doutrinas não são examinadas com objetividade. A razão geralmente dada para este ódio é o terror praticado por Stálin durante muitos anos. Há sérias razões, contudo, para por em dúvida a sinceridade dessa explicação; os mesmos atos de terror e desumanidade quando praticados pelos franceses da Argélia, por Trujillo em São Domingos e por Franco na Espanha não provocam nenhuma indignação moral equivalente; de fato, nenhuma indignação. Outrossim, a mudança do sistema de terror irrefreado de Stálin para o reacionário Estado policial de Kruschev recebeu insuficiente atenção, malgrado fosse de imaginar que qualquer pessoa seriamente interessada na liberdade humana perceberia e ficaria feliz com tal mudança, que, embora não suficiente, é uma grande melhoria em relação ao terror indisfarçado da era de Stálin. Tudo isso faz-nos pensar se a indignação contra a Rússia terá deveras suas raízes em sentimentos morais e humanitários, ou antes no fato de um sistema que não admite a propriedade privada ser considerado desumano e ameaçador.

É difícil dizer a qual dos fatores acima mencionados cabe maior responsabilidade pela deturpação e má interpretação da filosofia de Marx. Provavelmente variam de importância conforme a pessoa e o grupo político, e é improvável ser qualquer deles o único fator responsável.

 

 

 



* Erich Fromm é psicanalista e autor de várias obras importantes para a compreensão da sociedade capitalista, entre as quais O Medo à Liberdade; Análise do Homem; Psicanálise da Sociedade Contemporânea; Meu Encontro com Marx e Freud.

[1] É triste dizer, mas não pode ser evitado, que essa ignorância e essa deturpação de Marx são mais comuns nos Estados Unidos do que em qualquer outro país ocidental. Deve ser especialmente mencionado que nos últimos quinze anos houve um extraordinário renascimento de discussões sobre Marx na Alemanha e na França, mormente em torno dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos publicados neste volume. Na Alemanha, os participantes dos debates são sobretudo teólogos protestantes. Menciono, inicialmente, os extraordinários Marxismusstudien (Estudos Marxistas), organizados por I. Fetscher, 2 volumes. I. C. B. Mohr (Tübingen, 1954, 1957). Ademais, a excelente introdução por Landshur à edição Kroner dos Manuscritos. A seguir, as obras de Lukács, Bloch, Pepitz e outros, citados adiante. Nos Estados Unidos, tem sido observado ultimamente um interesse por Marx, que cresce aos poucos. Infelizmente, em parte se manifesta através de diversos livros cheios de prevenção e adulterações, como The Red Prussian, de Schwarzchild, ou de livros excessivamente simplificados e enganadores como The Meaning of Communism, de Overstreet. Em contraste, Joseph A. Schumpeter, em seu Capitalism, Socialism and Democracy (Harper & Brothers, 1947), dá uma excelente apresentação do marxismo. Cf. também o problema do naturalismo histórico, Christianity and Communism, de John C. Bennet (Association Press, Nova York). Ver, igualmente, as excelentes antologias (e introduções) de Feuer (Anchos Books) e de Bottomore e Rubel (Londres, Watts and Co.). Especificamente, acerca da opinião de Marx sobre a natureza humana desejo mencionar Human Nature: The Marxist View, por Venable, que, malgrado sagaz e objetivo, padece do fato de o autor não ter podido recorrer aos Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Cf., ainda, para a base filosófica do pensamento de Marx, o brilhante e penetrante livro de H. Marcuse, Reason and Revolution (Nova York, Oxford University Press, 1958). Ver, também, meu estudo de Marx em The Sane Society, já citada. A minha discussão anterior da teoria de Marx em Zeitschrift für Sozialforschung, vol. 1 (Leipzig, Hirschfeld, 1932). Na França, os debates têm sido em parte conduzidos por padres católicos e em parte por filósofos, na maioria socialistas. Entre os primeiros, cito especialmente, J. Y. Calvez, La Pensée de Karl Marx, Paris, ed. Du Seil, 1956; entre os últimos, A. Kojève, Sartre e, sobretudo, as várias obras de Henri Lefebvre.

[2] A primeira versão inglesa foi publicada em 1959, na Inglaterra, por Lawrence and
Wishart, utilizando uma tradução recentemente publicada pela Editora de Línguas Estrangeiras, de Moscou. A tradução por Tom Bottomore, incluída neste volume, é a primeira feita por um estudioso ocidental.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Livro analisa a contribuição de Fromm para compreender os dilemas humanos na sociedade moderna

 


A Edições Redelp, casa publicadora que vem se destacando pela publicação de obras de alta qualidade formal e de conteúdo, com livros bem acabados, capas bonitas, papel de alta qualidade (e com preços acessíveis, apesar disso), acaba de publicar a coletânea "Erich Fromm e os Dilemas Humanos na Sociedade Moderna", organizada por André de Melo Santos. André de Melo Santos produziu uma tese de doutorado sobre Erich Fromm, além de ter publicado vários artigos sobre o grande psicanalista humanista. Nesse livro, outros pesquisadores do pensamento de Fromm, como Alan Ricardo Pereira Duarte, Edmilson Marques, Maria Angélica Peixoto e Nildo Viana contribuem, além do próprio André de Melo Santos, com artigos esclarecedores sobre vários aspectos do pensamento de Fromm, tais como a questão da alienação, da liberdade, do caráter social, coisificação, entre outros. É uma obra imperdível para todos os pesquisadores e interessados em geral no pensamento de Erich Fromm e sua contribuição psicanalítica na sociedade doente em que vivemos. 

Abaixo material informativo da editora:

Erich Fromm e os Dilemas da Sociedade Moderna - André de Melo Santos

Erich Fromm é um dos grandes nomes da psicanálise e um dos mais argutos analistas da sociedade moderna e dos processos psíquicos no seu interior. A coletânea organizada por André de Melo Santos, sociólogo e historiador estudioso do pensamento de Erich Fromm, reúne autores que há muito tempo pesquisam o psicanalista alemão e oferecem uma rica contribuição para compreender alguns de seus principais conceitos e análises da sociedade capitalista. É uma obra fundamental para todos que querem entender os dilemas humanos na sociedade moderna, que se reproduziram e ampliaram muito depois da morte de Erich Fromm.





Título: Erich Fromm e os Dilemas Humanos na Sociedade Moderna.

Organizador: André de Melo Santos.
Editora: Edições Redelp.
Edição: 01.
Ano: 2020
ISBN:978-65-86705-22-5

SINOPSE:

Erich Fromm é um dos mais renomados psicanalistas de todos os tempos, bem como é considerado um dos principais representantes do chamado freudo-marxismo. Fromm, através de sua síntese entre o pensamento de Marx e Freud, une a perspectiva psicanalítica sobre o indivíduo com a perspectiva marxista sobre a sociedade capitalista, promovendo uma análise bem superior à muitas formas de sociologismo e de psicologismo. A presente coletânea tematiza alguns dos principais problemas que Fromm identifica na sociedade moderna, tal como a questão da coisificação, da alienação, do caráter social, da liberdade. Fromm percebe a sociedade contemporânea como sendo “doente” e, por conseguinte, sendo necessária transformá-la para o ser humano se libertar e reencontrar com sua essência perdida. A liberdade, a produtividade, a autorrealização, emergem como exigências radicais dos seres humanos numa sociedade marcada pela burocratização, abstratificação, mercantilização, entre outros problemas. O presente livro é leitura fundamental para compreender os indivíduos e seu universo psíquico na sociedade moderna, tal como analisado por Erich Fromm.

Comprar na Livraria Redelp (livraria da Edições Redelp).

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Para entender a alienação: Marx, Fromm e Marcuse


Para entender a alienação: Marx, Fromm e Marcuse


Maria Angélica Peixoto


Resumo: O artigo aborda a interpretação de Marcuse e Fromm acerca do conceito de alienação, discutindo as divergências e convergências do pensamento destes teóricos, bem como compara a formulação do conceito de alienação por Marx com a apresentada por eles. O trabalho ressalta ainda as contribuições de Marcuse e Fromm para o pensamento social contemporâneo, pois ao tentarem resgatar o conceito de alienação em Marx, proporcionam elementos importantes para se repensar a problemática em torno deste conceito.
Palavras-chave: alienação, trabalho, idolatria, materialismo histórico.

Abstract: The article approaches the interpretation of Marcuse and Fromm concerning the alienation concept, discussing the divergences and convergences of the thought of these theoretical ones, as well as it compares the formulation of the alienation concept for Marx with introduced your by them. The work still points out the contributions of Marcuse and Fromm for the contemporary social thought, because to the they try to rescue the alienation concept in Marx, they provide important elements to rethink the problem around this concept.
Word-key: alienation, work, idolatry, historical materialism.

Este trabalho objetiva apresentar o conceito de alienação tal como visto por Herbert Marcuse e Erich Fromm. Abordaremos as possíveis convergências e divergências destes autores em relação a este tema. Antes de tudo, apresentaremos o conceito de alienação em Marx, já que a discussão em torno deste conceito pelos dois autores parte desta discussão. Assim, é importante comparar o conceito de alienação tal como desenvolvido por Marx com a abordagem destes dois pensadores. Depois de explicitar como Fromm e Marcuse interpretam o conceito marxista de alienação, apresentaremos nosso ponto de vista sobre estas abordagens. Vale esclarecer que este trabalho não tem a intenção de descartar as contribuições de Marcuse e Fromm. Ao contrário, estamos certos da importância de tais autores e seus estudos e nossa intenção aqui é somente aprofundar a questão e apresentá-la tal como a interpretamos. Para tanto, as divergências surgem e para o bem do debate são sempre bem recebidas. Enfim, são estas as intenções do nosso trabalho.

O Conceito de Alienação em Marx

Para Marx (1983), a alienação humana está no fato de haver no processo de produção uma relação que impede e constrange a realização do trabalho como “objetivação”, ou seja, como realização da natureza humana. Mas antes de tudo devemos perguntar: o que é a alienação? Segundo Marx, a alienação surge com a divisão social do trabalho e com esta divisão surge a separação entre os que dirigem e os que executam o processo de trabalho. Há, pois, nesta relação, a instauração da alienação. O trabalhador é constrangido a atender suas necessidades mais imediatas, tais como: comer, beber, vestir, etc., se não o fizer porá em risco sua própria existência. Ao fazer de sua capacidade de trabalho um meio para atingir determinados fins, a sua atividade deixa de ser uma atividade livre (auto-atividade) e torna-se trabalho alienado.
Por conseguinte, o trabalhador confronta-se com o produto de seu trabalho como algo “estranho e hostil”, sintoma de que seu trabalho é trabalho alienado. Como dissemos acima, esta alienação do trabalhador se dá no próprio processo de trabalho. A conseqüência disto é que o produto do trabalho confronta-se com quem o criou: o trabalhador. Este processo se concretiza na medida em que o trabalhador ao se separar do produto do seu trabalho, outro que não o trabalhador se apropriará dele. Ao se apropriar do trabalho do trabalhador, o não-trabalhador criará as condições necessárias para a efetivação da propriedade privada.
Marx, ao analisar a economia política, observa que esta toma a propriedade como a responsável pela acumulação. Ao contrário, o que Marx quer nos fazer ver é que é no próprio processo de trabalho que se cria as condições para tal acumulação. Sendo, pois, a propriedade privada uma mera conseqüência do processo de trabalho. É então na esfera da produção que o trabalho alienado se efetiva, tornando possível a apropriação por parte do não-trabalhador dos produtos do trabalho do trabalhador. É justamente neste processo que se engendra a alienação. Ela passa da esfera da produção para todas as demais esferas da sociedade, se generalizando. A alienação contamina assim todas as outras relações sociais. Marx aponta como única saída a emancipação por parte dos próprios trabalhadores deste processo que gera o trabalho alienado. Só o trabalhador libertando-se, libertará toda a humanidade de sua alienação. Quando a alienação não fizer parte do processo de trabalho, a humanidade estará livre dela e poderá, então, se reconhecer como ente-espécie.

Fromm: Alienação e Idolatria

Fromm inicia o capítulo dedicado a alienação com a seguinte frase:
“O conceito do homem ativo e produtivo, que compreende e controla o mundo objetivo com suas próprias faculdades, não pode ser plenamente entendido sem o conceito de negação da produtividade: a alienação” (Fromm, 1983, p. 50).
A partir disto se coloca a questão: o que é alienação para Fromm? Alienação é o homem estar separado (alheado) daquilo que criou. Sendo que o objeto criado pelo homem muitas vezes se volta contra ele próprio. Isto o impede de vivenciar o mundo como ser autônomo. Ao contrário, a sua relação com o mundo externo e com ele próprio é uma relação passiva, receptiva. Alienação, então, nada mais é do que a negação da produtividade, ou seja, da capacidade criadora do homem.
Erich Fromm vai nos mostrar que o conceito de alienação foi pela primeira vez expresso no Ocidente pelo conceito de idolatria, sendo que este aparece no Antigo Testamento. O conceito de idolatria expressa o quanto o indivíduo está perdido de si mesmo. A vida se petrifica na adoração de ídolos. Ao ídolo entrega-se todo o potencial humano, sendo criação humana, acaba finalmente por sujeitar o próprio criador. Ao adorar aquilo que criou, o criador torna-se, então, vazio de vida. Fromm define o conceito de idolatria da seguinte forma:
“A essência do que era chamado ‘idolatria’ pelos antigos profetas não está em o homem adorar muitos deuses em vez de um único. Está em os ídolos serem a obra das mãos do próprio homem eles são coisas, e no entanto o homem curva-se ante elas e as reverencia; adora aquilo que ele mesmo criou. Ao fazê-lo ele se transforma em coisa. Transfere às coisas de sua criação os atributos de sua vida, e, em vez de experenciar-se como pessoa criadora, só entra em contato consigo mesmo através da adoração do ídolo. Ele se alheou às forças de sua própria vida, à riqueza de suas próprias potencialidades, e só entra em contato consigo mesmo de maneira indireta, e submetendo-se à vida congelada nos ídolos” (Fromm, 1983, p. 51).
Segundo Fromm, os ídolos são por vezes, um Deus, ora o Estado, a Igreja, posses, etc. É claro que a pessoa idólatra muda o objeto de sua adoração, mas isto dependerá de suas motivações, e tais motivações não possuem apenas um sentido religioso, há por detrás dela vários outros sentidos. Mais adiante, Fromm irá apresentar o conceito de alienação tal como visto por Marx:
Para Marx, o processo de alienação manifesta-se no trabalho e na divisão do trabalho. O trabalho é, para ele, o relacionamento ativo do homem com a natureza, a criação do próprio homem (...). Com a expansão da propriedade privada e da divisão do trabalho, todavia, o trabalho perde sua característica de expressão do poder do homem; o trabalho e seus produtos assumem uma existência à parte do homem, de sua vontade e de seu planejamento (Fromm, 1983, p. 53).
Ao apontar a divisão do trabalho como uma das causas principais que levam o homem à alienação na visão marxista, Fromm segue o raciocínio de Marx apontando que não é através de uma distribuição igualitária de renda que se supera a alienação, ao contrário, é com a abolição do modo de produção capitalista que se pode superá-la.
O trabalho alienado não só escraviza o trabalhador como também o capitalista. Para Fromm tal escravização é feita por “coisas e circunstâncias” criadas pelos próprios homens. Segundo Fromm, Marx ressalta que é na sociedade capitalista que a alienação atinge o seu mais alto grau, embora ela tornou-se presente na história da humanidade a partir do momento em que se instaurou a divisão social do trabalho e a separação execução e direção: de um lado, os trabalhadores, que executam o trabalho; de outro, os que dirigem o processo de trabalho.
No capitalismo é que se pode sentir mais cruelmente a alienação. O operário ao produzir, produz não para si, mas para o capitalista que é o que dirige o processo de trabalho. É nesta relação que a humanidade se perde como “ente-espécie” e se coloca em inferioridade em relação aos animais. Toda servidão deriva desta relação entre trabalhador e não-trabalhador. E a emancipação é obra dos próprios trabalhadores que libertando-se libertam a humanidade inteira.
Fromm ressalta a importância de percebermos que no processo de trabalho alienado “não só o mundo das coisas que se torna superior ao homem, mas também as circunstâncias sociais e políticas por ele criadas se tornam seus senhores” (Fromm, 1983, p. 57). Fromm, em consonância com Marx, aponta a possibilidade de generalização da alienação. Ela inicia no processo de trabalho e se generaliza por toda parte. Com isto, vimos que “a alienação conduz à perversão de todos os valores”. A alienação torna cada esfera da vida (econômica, moral) separada, desmembrada uma da outra. Ele alude ao fato de a alienação ser cada vez maior em segmentos da sociedade que manipulam símbolos e homens. Afirma que Marx não previu o quanto a alienação se expandiria, contaminando assim, toda a vida social. Aponta, finalmente, o nível de coisificação das relações humanas e conclui dizendo que a humanidade se tornou prisioneira das coisas que criou, tornando a si própria mercadoria, coisa vendável. Enfim, no essencial, estas são as contribuições de Erich Fromm ao estudo da questão da alienação.

Marcuse: Alienação e Materialismo Histórico

No capítulo “Novas Fontes Para a Fundamentação do Materialismo Histórico”, em seu livro Idéias Para Uma Teoria Crítica da Sociedade”, Marcuse se baseia na crítica de Marx, no momento em que este último busca a base para uma “crítica e fundamentação filosóficas da Economia Política no sentido de uma teoria da revolução” (Marcuse, 1981, p. 9), para apresentar sua discussão sobre a questão da alienação.
Marcuse procura nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de Marx elementos que possibilitem a discussão das categorias fundamentais da teoria marxista, a saber: trabalho, objetivação, alienação, superação, propriedade. Embora o objetivo desta parte de nosso trabalho apresente como principal meta a definição de alienação na visão de Marcuse, não podemos deixar de reconhecer que para ele as categorias fundamentais da teoria de Marx estão implicadas entre si, sendo que o conceito de alienação passa necessariamente pelas demais categorias (citadas acima), sem as quais não seria possível delinearmos o conceito de alienação na concepção de Marx. Neste sentido, o conceito de trabalho será tomado aqui como o determinante. Perguntamos, então: como é definida a categoria trabalho? E mais: porque tal categoria fornece os elementos necessários para a compreensão das demais?
Marcuse leva o leitor a compreender a importância de se distinguir, tal como fez Marx, a “economia política tradicional” da “economia política socialista”. A primeira, oculta a realidade social alienando e desvalorando o homem; e a segunda é a única capaz de desvendar as “leis aparentemente inalteráveis” da sociedade. É aqui que a economia política socialista toma como fato a “exteriorização” e a “alienação”, enquanto a tradicional não aceita tais conceitos como fatos. Ao operar a “crítica positiva” da economia política, Marx afirma que a alienação e a exteriorização fazem parte da economia política tradicional. A seguir, ele dividirá inicialmente a análise em três conceitos: “salário do trabalho”, “lucro do capital” e “renda da terra”. No entanto, Marcuse vai nos mostrar logo adiante que Marx vai romper com estes três conceitos e apresentar um novo conceito o de trabalho alienado. É então que Marcuse vai apresentar o fato novo descoberto por Marx:
O conceito de trabalho, portanto, em seu desenvolvimento rompe o âmbito delineado pela colocação do problema; sob este conceito prossegue a discussão que, então, descobre um novo ‘fato’ que se transforma em base da revolução comunista. A interpretação deve, portanto, fixar-se no conceito marxista de trabalho (Marcuse, 1981, p. 14).
Percebemos, então, que para Marcuse, o conceito marxista de trabalho é a chave para se interpretar os Manuscritos.
Quando Marx descreve a forma de trabalho e a forma de existência do trabalhador existentes na sociedade capitalista: completa separação em relação aos meios de produção e ao produto do trabalho transformado em mercadoria, oscilação dos salários, do trabalho em torno do mínimo físico de subsistência, desconexão entre o trabalho realizado como ‘trabalho forçado’ a serviço do capitalista e a ‘realidade humana’ do trabalhador, então todas essas características podem apresentar-se como simples fatos da Economia Política. Esta impressão parece ser confirmada pelo fato de que Marx retira ‘por meio da análise do conceito de trabalho exteriorizado’ o conceito de ‘propriedade privada’, ou seja, o conceito de Economia Política (Marcuse, 1981, p. 14).
Marcuse, ao analisar a “caracterização do trabalho exteriorizado” percebe que o que caracteriza tal trabalho não é somente “uma situação econômica” mas uma alienação e desvalorização da vida humana, que leva a uma “distorção” de fatos da existência humana. Neste contexto, a análise de Marcuse tenta resgatar a importância de se tomar o homem como tal e não como mero “sujeito econômico”. Tal resgate implica em superar a propriedade privada nela o homem é tomado como objeto. Aqui há uma conexão positiva entre a essência humana e filosofia, esta última fornece as bases filosóficas para a superação da alienação.
Desta forma podemos compreender o conceito marxista de trabalho, que não é apenas um “fato econômico” ou um conceito de economia política burguesa e sim a “essência humana”, ou seja, o que caracteriza as “forças essenciais humanas”. Marcuse, mais adiante, após definir a categoria trabalho, descreve o desenvolvimento histórico da humanidade, e vimos que nessa concepção de trabalho já estava lançado as possibilidades de existência do trabalho alienado. A partir do momento em que o trabalhador na sua determinidade se separa do produto que criou, outro se apropriará dele, ou seja, o não-trabalhador. Esta separação do trabalhador do objeto criado por ele ocasiona uma divisão do trabalho. Não se trata apenas do fato, verdadeiro, de que o trabalhador perca o produto do seu próprio trabalho, mas sim da própria transformação do trabalho em mercadoria, em algo que é vendável. Segundo Marcuse,
Assim o trabalho, em vez de uma manifestação do todo do homem, se transforma em ‘exteriorização’, em vez de plena e livre realização do homem se transforma em total ‘desrealização’: ele apresenta de tal forma como desrealização que o trabalhador é desrealizado até o estado de inanição (Marcuse, 1981, p. 17).
Como, então, Marcuse irá definir alienação? Ele a define como sendo uma determinada relação do trabalhador com o objeto de seu trabalho, é, pois, nesta relação que se “funda o fato da alienação e coisificação”. Assim, a exteriorização do trabalho apresenta uma “destruição” e “alienação” da essência humana. O trabalho é o espaço da realização autêntica do homem, mas não o trabalho alienado. Para expressar esta realização autêntica do homem no trabalho, Marcuse fala em objetivação. Ele considera que, para Marx, o homem é um “ser genérico”, “universal”. O “gênero” de um ser é a sua raiz, sua essência. Esta essência é comum a todos que pertencem a este gênero. Para Marcuse,
Ele pode relacionar-se livremente com todo ser; ele não está limitado pela determinação fatual momentânea do ser e por sua relação direta com essa determinação; essência de qualquer determinação direta factual; ele pode reconhecer e apreender as possibilidades que existem em cada ser; ele pode esgotar, transformar, construir, dirigir (‘produzir’) todo ser segundo esta ‘medida imanente’. O trabalho como ‘atividade vital’ especificamente humana se baseia nesse ‘ser genérico’ do homem: o trabalho pressupõe o poder relacionar-se com o ‘universal’ dos objetos e com as possibilidades neles imanentes. E no poder relacionar-se com o próprio gênero se baseia a liberdade especificamente humana: a auto-realização, ‘autoprodução’ do homem. Por meio do conceito de trabalho livre (do livre produzir), a relação do homem como ser genérico com seus objetos se torna mais clara (Marcuse, 1981, p. 22-23).
Neste sentido, o trabalho possui duas faces: é ao mesmo tempo, realização e destruição da essência humana. Isto só pode ser explicado pela situação histórica concreta do homem, onde se dá a inter-relação entre “essência” e “facticidade”. Não se trata de essência humana abstrata que está acima da história e sim algo que se determina na história e somente nela. Daí a possibilidade do trabalho passar de “realização” para “desrealização” humana. Houve, no processo histórico da humanidade, uma separação entre essência e existência. A existência deixa de ser um meio para manifestação de sua essência para que a essência seja um meio para manter a existência física do homem. Assim, se estabelece a alienação do trabalho. Marcuse conclui que:
Se, desse modo, a essência e a existência se separam e sua reunificação como realização factual é a tarefa propriamente livre da prática humana, então, quando a facticidade chegou até a inteira inversão da essência humana, a superação radical dessa facticidade é a tarefa pura e simplesmente. Exatamente a visão certeira da essência do homem se transforma em impulso para a fundamentação da revolução radical: o fato de que na situação factual do capitalismo não se trata apenas de uma crise econômica ou política, e sim de uma catástrofe da essência humana esta concepção condena toda e qualquer reforma econômica ou política ao fracasso e exige a superação catastrófica da situação factual por meio da revolução total. Somente a partir de uma fundamentação correta, cuja solidez não possa ser abalada por meio de argumentos econômicos ou políticos, é que surge a questão das condições históricas e dos portadores da revolução: a teoria da luta de classes e da ditadura do proletariado. Toda crítica que se ocupa dessa teoria sem discutir seu fundamento próprio não atinge seu objeto (Marcuse, 1981, p. 36-37).
Qual é a origem da alienação? Segundo Marcuse a demonstração disto é tarefa da análise econômico-histórica. Para Marx, tal origem se encontra na divisão do trabalho. Isto deriva da concepção de Marx de que o próprio trabalhador produz o domínio capitalista, pois a auto-alienação do homem de si mesmo se dá na relação com outros homens. Segundo Marcuse,
O contexto em que essa afirmação se encontra já é conhecido: o relacionamento do homem com o objeto de seu trabalho é imediatamente seu relacionamento com outros homens, com os quais ele tem esse objeto e a si mesmo como ser social (Marcuse, 1981, p. 45).
Se o produto do trabalho não pertence ao trabalhador, é porque pertence a outros homens que não o trabalhador, então, surge a figura do não-trabalhador. Através da alienação, o trabalhador se relaciona com sua própria atividade como “atividade não-livre”, sob o domínio e a coerção de outro, o não-trabalhador. Marcuse afirma que:
Não se trata de que existe primeiro um ‘senhor’ que submete um outro homem, exterioriza dele o seu trabalho, transforma-o em um simples trabalhador e a si mesmo em não-trabalhador; mas tampouco se trata de que a relação de dominação e servidão seja mera conseqüência da exteriorização do trabalho, pois a exteriorização do trabalho, como alienação da própria atividade e de seu objeto, em si mesma já é a relação entre trabalhador e não-trabalhador, dominação e servidão (Marcuse, 1981, p. 45).

Marcuse, Fromm e o Conceito Marxista de Alienação

Podemos dizer que Fromm e Marcuse divergem na concepção do que vem a ser alienação. Fromm define alienação como sendo a “negação da produtividade” humana, ou seja, da capacidade criadora do homem. Ele também coloca tal conceito como sinônimo de idolatria. Alienação e idolatria, então, são, na concepção de Fromm, a mesma coisa. Tal questão abre possibilidades para questionamentos: idolatria não seria apenas uma conseqüência da alienação e não a própria alienação?
Apesar de Fromm concordar com Marx, no que concerne a questão da origem da alienação, ou seja, na idéia de que a alienação surge com o aparecimento da divisão social do trabalho, ele tende a definir a alienação como sendo um processo que ocorre na relação do homem com o produto de seu trabalho, tal como visto pela consciência humana, daí sua identificação entre alienação e idolatria. Mas, se retomarmos a definição de alienação fornecida por Marx, veremos que as duas definições são contraditórias. Para Marx, é no trabalho (atividade vital humana, característica da essência humana) que ocorre a alienação. É por isso que ele fala em trabalho alienado. Este se caracteriza por uma determinada relação social onde o não-trabalhador dirige o processo de trabalho do trabalhador.
A relação do trabalhador com o produto do seu trabalho, bem como a visão que ele possui deste produto, é uma conseqüência daquela relação anterior. Se o trabalhador não dirige o seu processo de trabalho, então ele também não irá ter o domínio sobre este seu produto e por isso terá um “estranhamento” em relação a ele. Portanto, são três processos inter-relacionados: relação homem/trabalho; relação homem/produto do trabalho; relação da consciência humana com o produto do trabalho. Marx utiliza a expressão “alienação” para expressar estas três relações (Viana, 1995).
Porém, deve-se reconhecer que ele utiliza esta expressão em vários sentidos, tanto no sentido tradicional fornecido pela filosofia alemã (ligado à questão da consciência) quanto no sentido novo fornecido por ele (trabalho alienado), que, às vezes, para distinguir de outros sentidos, ele chama de “auto-alienação”. Para a relação do trabalhador com o produto do trabalho e o não-trabalhador Marx cunharia a expressão exploração e para relação do trabalhador com o produto de seu trabalho na consciência, ele adotaria o conceito de fetichismo (Viana, 1995; Marx, 1988).
Fromm, assim, confunde fetichismo (idolatria) com alienação, pois a idolatria é o resultado da alienação e a alienação é o próprio processo. Fromm reconhece a alienação no trabalho (“negação da produtividade humana”) mas acaba deslizando sua interpretação para a consciência do trabalhador a respeito do produto do trabalho e este é o seu grande equívoco.
E a interpretação de Marcuse? Ele acaba caindo na mesma ambigüidade que Fromm, pois, inicialmente, ele define a alienação como uma determinada relação entre o trabalhador com o objeto do seu trabalho (exploração) e posteriormente como sendo a própria atividade, a relação do trabalhador com seu trabalho caracterizada pela dominação do não-trabalhador sobre o seu processo. Neste sentido, Marcuse comete equívocos semelhantes aos de Fromm.
Quais são as divergências e convergências entre Fromm e Marcuse? A principal convergência entre ambos está na definição do conceito de trabalho e nisto eles estão de pleno acordo com Marx: o trabalho, em sentido amplo, é a essência humana[1]. O homem humaniza o mundo através de seu trabalho sobre ele e assim revela sua essência e manifesta suas capacidades produtivas. Entretanto, em determinadas condições sociais surge o trabalho alienado, que é a negação desta essência. Portanto, tanto Fromm quanto Marcuse reconhecem o caráter dual do trabalho na história: pode ser objetivação ou alienação.
Mas também existe divergência entre ambos. Marcuse faz uma abordagem excessivamente filosófica dos Manuscritos, enquanto que Fromm coloca sua interpretação em termos históricos-concretos, ou seja, num sentido mais próximo de Marx. Marcuse não compreende a ruptura efetuada por Marx com a filosofia, (que culminará com a formação do “socialismo científico”) e faz uma interpretação que não sai do campo filosófico e quando isto se faz necessário pela própria exigência do texto de Marx (por exemplo, o problema da origem da alienação) Marcuse diz que se trata de uma análise histórico-econômica que ele não irá abordar. Neste sentido, Fromm avança mais que Marcuse. Assim, fica claro os limites da “filosofia da psicanálise” de Marcuse, já discutidas por Viana, uma das razões das divergências entre os dois pensadores (Viana, 2008).
Outra divergência se encontra na ênfase que cada um coloca na definição de alienação. Para Fromm a alienação se realiza no processo de trabalho e derivado daí a visão do trabalhador a respeito do produto do seu trabalho (em termos marxistas: alienação e fetichismo) e Marcuse observa a alienação no processo de trabalho e na ralação entre o trabalhador e o produto do trabalho (em termos marxistas: alienação e exploração ou “alheamento”). Nesta parte é Marcuse que avança mais do que Fromm. A razão disto se encontra no fato de que Marcuse focaliza as relações sociais como locus da alienação, enquanto que Fromm ao confundir alienação e fetichismo abre a possibilidade para a transformação da questão da alienação em um “problema da consciência”, sendo este um procedimento da filosofia idealista em visível contradição com a concepção materialista de Marx.
Por fim, devemos reconhecer os méritos tanto de Fromm quanto de Marcuse. Ambos buscam interpretar e compreender os Manuscritos de Marx, que são considerados por muitos como escritos “pré-marxistas” e “pré-científicos” (Godelier, 1969). Eles também esclarecem importantes questões sobre os Manuscritos e, além disso, recuperam o significado autêntico do conceito marxista de trabalho. São, portanto, duas contribuições importantes para o pensamento social contemporâneo, apesar de suas deficiências no processo de análise do conceito de alienação.
Referências bibliográficas
FROMM, Erich. O Conceito Marxista do Homem. 8a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.
GODELIER, Maurice. Racionalidade e Irracionalidade na Economia. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969.
MARCUSE, Herbert. Idéias Para Uma Teoria Crítica da Sociedade. Rio de Janeiro, Zahar, 1981.
MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. In: FROMM, Erich. O Conceito Marxista do Homem. 8a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.
MARX, Karl. O Capital. Vol. 1. 3a edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988.
VIANA, Nildo. Alienação e Fetichismo em Marx. In: Revista Fragmentos de Cultura. Ano 05, No 11, maio de 1995.
VIANA, Nildo. Marcuse e a Crítica ao Neofreudismo. In: Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.
VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.



[1] Claro que acrescentando que tal trabalho é realizado através da cooperação, o que faz a sociabilidade ser parte da essência humana (Viana, 2007).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

INTRODUÇÃO À LEITURA DE ERICH FROMM


INTRODUÇÃO À LEITURA DE ERICH FROMM


Carlos Reis 
Eurico Carvalho

1.        Fromm e a Escola de Fraxicoforte


A formação de Erich Fromm tem as suas raízes no pensamento crítico da sociedade que se organizou em Francoforte em torno das figuras de, e em particular, Horkheimer, Adorno, Marcuse e, mais tarde, de Habermas. Essa escola propunha como modelo de análise um marxismo independente de forças partidárias enrique- cido com conceitos oriundos da psicanálise» O seu pensamento era «crítico» no quanto transcendia os quadros observacioinais sujeitos   a estudo, o qual, deste modo, conduzia a  um esforço conclusivo já de ordem macro-sociológica, aliás dentro dos cânones da socio- logia europeia clássica. Voltando-se para o indivíduo, a «escola de Francoforte», aliás um grupo de indivíduos que organizaram as suas ideias no âmbito do Instituto de Investigação Social da dita cidade, recria o movimento iluminista que teve a sua alva na «vira- gem helenística» do século IVa.C que inicia a preocupação pela emancipação do indivíduo. Como diz M. Landmann: «O pensa- mento social da escola de Francoforte enfrenta a sociologia em- pírica (...). A última é acusada de aceitar os factos sociais como factos quase neutros, análogos às ciências naturais [porque] «o feiticismo dos factos» é uma «glorificação de tudo quanto existe», e por isso é anti-iluminismo» ( 1).

Em termos de enciclopédia (2) Fromm é definido como (sic) «neo-freudiano, verbalista e culturalista» — etiqueta esta, mo en- tanto, por ele rejeitada se as suas consequências forem lidas num contexto antropológico tradicional (aqui a vacuidade é-nos alheia...). Na verdade, a abordagem frommiana assina-se como uma análise dinâmica das forças económicas, políticas e psicológicas em jogo na sociedade. Além do mais Fromm só é freudiano na medida em que considera por assim dizer, o «espírito da teoria», ou seja, o seu carácter revolucionário enquanto desmascaramento do pressuposto cartesiano do sujeito todo-consciente; não seguindo, por outro lado,   a «letra da doutrina», isto é, o referente redutor da sexualidade,  é concepção mecanicista do homem cristalizada na Libido por uma «burocracia analítica» e impotente para abrir novas portas.

Para abri-las, em todo o caso, impor-se-á por si no quadro dessa «análise dinâmica» o contributo do marxismo. De facto, o destino futuro da psicanálise impunha necessariamente, desde Freud, a integração de categorias sociais no conjunto dos seus elementos doutrinários e técnicos, originalmente voltados para a dimensão individual do paciente. Sendo nos primórdios apenas um método terapêutico, a sua dinâmica interna exigia uma extensão ao homem social para um maior alcance da sua penetração analítica — pro- jecto no qual se empenhou toda uma geração dissidente à ortodoxia freudiana, a «esquerda psicanalística», nela se destacando Reich e Marcuse. Com efeito, entre marxismo e psicanálise existe uma possibilidade real de aproximação das suas teses, de que Fromm pretende ser, aliás, uma específica síntese efectiva.

Em primeiro lugar, a psicanálise e o marxismo são ciências materialistas enquanto uma proclama a compreensão da bio-- grafia através da análise da estrutura instintiva e dos conflitos íntra- psicológicos num contexto individualizado pela experiência de vida (a da infância, em especial) e pela constituição^ física herdada, a outra traduz a importância histórica da socio-grafia tendo  por base a correlação das forças e meios de produção no quadro duma luta de classes.

Estão particularmente próximas na análise da consciência como reflexo de outras forças encobertas, quer como expressão de uma existência social específica, quer determinada por impulsos de ordem biológica. Portanto, em ambas as teorias se mostram e se demons- tram as ilusões da «falsa consciência», seja esta colectiva ou indi- vidual — comitantemente se supõe uma explicação essencial dessa (consciência, tanto em termos de «ideologia» como de «racionali- zação», deste modo se instaurando aquilo a que Fromm chama uma nova «dimensão de honestidade».

Conquanto o homem julgue no seu agir, agir como julga, deter- minado pelos seus próprios interesses e motivos, na realidade é motivado por forças anteriores ou alheias à sua consciência das mesmas.

Em Marx, por exemplo, a lógica do processo histórico antecede a lógica subjectiva dos indivíduos nele envolvidos. Numa sociedade de classes a consciência do homem é necessariamente falsa cons- ciência, ideologia, a qual dá ares de racionalidade a algo que, devido às condições inerentes a uma sociedade de classes, e em si irra- cional. A percepção consciente da realidade como motor da mu- dança é, para Marx, uma condição de progresso social e revolução, tal como é para Freud a condição para a solução terapêutica da doença mental. Marx, diz-nos Fromm, alheio aos problemas de terapia individual, não falou da percepção consciente como força motriz da mudança individual, mas, considerando todo o seu sis- tema, de modo nenhum constitui um esforço ilegítimo fazer essa conexão*

2.        Fromm e a Psicologia Social Analítica


A síntese frommia'na de marxismo e psicanálise envolve no quadro do progresso histórico o domínio social não só da Natureza mas também do próprio ser natural do homem, no qual as «racio- nalizações» se inscrevem como ideologias do comportamento social- mente exigido no âmbito mais vasto das relações entre indivíduos influenciados e determinados pelo esquema económico-social em que encontram ou não a realização das suas necessidades. Por isso mesmo o modo como as ideologias são produzidas e funcionam pode ser correctamente perspectivado se chegarmos a com- preensão do nosso sistema de impulsos. Assim o objectivo' da Psicologia Social Analítica consistirá na apreensão do verdadeiro nó conceptual entre marxismo e psicanálise: a caracterização do dispositivo instintivo de um grupo, do seu comportamento libidinal e predominantemente incosciente, em função da sua estrutura sócio-- económica. A psicanálise pode, pois, enriquecer a concepção global do marxismo num ponto específico. Pode fornecer um conhecimento mais objectivo de um dos factores essenciais no processo social: a 'natureza do próprio homem. O próprio complexo dos instintos do ser humano é uma das condições «naturais» a fazer parte da infra-estrutura do processo social Porque o materialismo histórico requer uma psicologia, isto ét uma ciência da estrutura psíquica do homem, sem dúvida, a psicanálise surge-nos como a primeira disciplina a responder a essa necessidade — e nessa medida tem cabimento um projecto como o da Psicologia Social Analítica.
Se Marx afirma que os homens são os produtos das suas ideologias, a Psicologia Social Analítica pode descrever empirica- mente o processo de produção dessas mesmíssimas ideologias e mais ainda, a interacção dos factores «naturais» e sociais. Pode mostrar como a situação económica é transformada em ideologia através dos impulsos do indivíduo. Por outro lado, não só o meca- nismo cultural serve para dirigir as forças libidinais em direcções específicas, socialmente desejadas, mas serve também para enfra- quecer as forças da libido até que deixem de constituir uma ameaça   à estabilidade social. Por conseguinte, toda uma parte do aparelho cultural serve para formar a atitude socialmente exigida de modo sistemático e metódico.
A estrutura libidinal (3) (mais tarde Fromm dar-lhe-á o nome de «carácter social») é o produto da influência das condições sócio-- económicas sobre os impulsos humanos; por sua vez, é um factor importante no condicionamento da evolução dos vários níveis da sociedade e no conteúdo da superstrutura ideológica. Em suma,  a estrutura libidinal de uma sociedade é o meio pelo qual a economia exerce a sua influência nas manifestações intelectuais e mentais do homem.
A Psicologia Social Analítica tem, pois, claramente, o seu lugar no contexto do materialismo histórico. Investiga um dos factores naturais actuante nas relações entre a sociedade e a natureza: o domínio dos impulsos humanos é o papel activo e passivo por eles desempenhado no processo social Assim averigua acerca da sua função decisiva e mediadora entre a base económica e a formação das ideologias* O seu método é o da psicanálise freudiana clássica aplicada aos fenómenos sociais♦ Explica as atitudes 'compartilhadas e sociavelmente relevantes em função do processo de adaptação do mecanismo dos impulsos às condições da vida sócio-económica da sociedade.
Daí a Psicologia Social Analítica — na terminologia from- miana — não se limitar apenas à rejeição de alguns aspectos do freudismo, mas também faz por conseglir complementá-lo noutros — o próprio carácter dinâmico, já referido, da ciência analítica freu- diana clama por essa integração complementar. Aliás, segundo Fromm, a crise da psicanálise («burocracia analítica», «psicologia do sofá», etc) é uma crise que se insere no contexto global e angustiante da própria crise vertical do mundo contemporâneo,

3,    Fromm e a Patologia da Normalidade


Rejeitando todo o relativismo sociológico, através do qual todo o carácter patológico é assimilado pragmaticamente; comoi desvio individual da norma vigente e funcional de uma determinada socie" dade, Fromm considera a existência de um critério universal de saúde mental para a espécie humana. Pressupondo a ideia de uma natureza humana, esse critério, porque universal, porá em causa toda a justificação «estatística» da normalidade, e nessa medida postula como mentalmente são tudo aquilo que vá de encontro à satisfação não das exigências sociais mas das necessidades criadas pela situação especificamente humana.
Admitindo-se essas necessidades, a estrutura do problema altera-se: a saúde mental passa a avaliar-se pelo grau de adaptação da sociedade à natureza humana, e não o contrário,

a)         A Situação Humana
'Partindo do conceito marxista da Natureza Humana, Fromm procura correlacioná-lo com a noção freudiana de inconsciente, autorizado pela própria concepção marxiana de impulsos consti- tuintes do ser natural do homem. Nos termos da teoria de Marx,   o comportamento humano é condicionado por variáveis «constantes ou fix [a] s, como a fome e o desejo sexual, que são parte integrante da natureza humana e só podem variar na forma -e direcção> assu- midas em diversas culturas; quanto às variáveis relativas não fazem parte integrante da natureza humana, mas [como diz Marx] devem   a sua origem a certas estruturas sociais condições de produção e de comunicação» ( 4 ),
A ideologia traduz os valores e objectivos propagados por uma sociedade; por outro lado, os impulsos relativos resvalam para defeitos socialmente modelados, quer dizer necessidades artificiais, isto é, justificações meramente ideológicas do «status quo» social. Desta forma ficam interligadas ideologia e alienação, enquanto perversão implícita duma natureza humana,
O ser humano superou os quadros coercivos das estruturas neurológicas herdadas em que se inscreve a  harmonia animal com a Natureza. Por isso, a condição humana é deveras peculiar; Noto- riamente surge a consciência. Contrapondo-se à vida animal, sim- plesmente «vivida», passiva e inconsciente, o homem transcende a sobrevivência existindo esta na maldição do seu destino e na ingente dicotomia da sua situação existencial, porque a  história é ele próprio. Conquistou-se a si mesmo num longo processo de ultrapassagem de uma fase narcísica de idolatria e totemismo, atin- gindo assim os primórdios da objectividade. Mas como a cada passo se abre o desconhecido, temos medo. Daí resulta a inelutável polaridade da existência — a encruzilhada do ser: para trás, a loucura incestuosa da refressão; adiante, o abismo do insondável,
É na tensão dessa polaridade existencial que todas as necessi- dades humanas essenciais são determinadas, A sua consciência exige uma estrutura de orientação, dentro de uma cultura que res- ponda ao problema fundamental da existência. Tal resposta é a definição própria de religiosidade, porque enquanto solução para o sentido da vida, enquanto horizonte, o cultural é sempre religioso e vice-versa. Transcendendo a Natureza o homem transcende-se a si mesmo, e neste movimento constrói a História,
Deduzidas da condição humana, as necessidades fundamentais, são a expressão dos factores reais que determinam a singularidade da existência» A sua satisfação acompanha a prossecução do pro- cesso histórico de auto-criação, efectivando-se aí a integridade da saúde mental. Rompendo a união primordial com a Natureza, abraça a solidão — o preço, afinal, de ser diferente. Tem de cons- truir o mundo dos homens, porque apearas se poderá encontrar no  relacionamento com os seus semelhantes, A orientação produtiva realiza a comparticipação e a actividade criadora, concretizando-se nas várias esferas, desde o pensamento, onde a compreensão ade- quada da realidade e condição da construção indeformada da mesma e de si próprio, até à dimensão da acção e do sentimento, ou seja,  da arte e do amor — neste deve cumprir-se o paradoxo duma união que mantém a identidade de cada um dos poios, concorrendo para  a plenitude da relação amorosa uma face erótica e outra fraterna, conjugando a função sexual com o aspecto qualitativo' duma fusão que promove a igualdade. Doutro modo teremos uma preversão do amor que, distanciado de si próprio, se perde em labirintos do sadoi-masoquismo, A qualidade particular de amar transcende o próprio objecto opondo-se à relação simbiótica, na qual o senti- mento de identidade é procurado na submissão ou no seu contrário, porque em ambos se paga o tributo da depeindência de subsumir-se no valor dos outros. Com efeito, o amor pressupõe a liberdade impossível na simbiose,
O fracasso de qualquer tipo de relação é o fracasso absoluto da própria existência — o narcisismo é a fuga para dentro de si, aonde tudo é ilusão. O homem não controla a realidade e muito menos se controla, já que o narcisismo é o polo oposto da objecti- vidade, da razão e do amor, A ausência de qualquer tipo de relação conduz a demência das religiões particulares.

 b)         O Carácter Social

 O carácter social estabelece-se a partir das condições reais de produção, das suas determinações no  plano da  organização social, e por intermédio da influência destes dois vectores na natureza humana a fim de garantir a estabilidade e o funcionamento optimi- zado de uma dada sociedade. Portanto, o carácter social é função  da realidade sócio-económica — não se obtém estatisticamente pela soma crua dos traços gerais do comportameento, ou seja, dos este- reótipos sociais. Nessa medida, a sua função é modelar e canalizar   a energia individual para assegurar a mecânica dos objectivos so- ciais, A ideologia é, afinal, o lubrificante imediato da relação viciosa do modus operandi da sociedade, que, neste caso, visa apenas a própria manutenção, O «tatus ideológico plasma-se, enfim, como carecter social, enquanto comportamento e em todas as for- mas redundantes que a ideologia assume, constitumdo o  elemento de construção de um quotidiano mimético. Neste contexto Fromm aponta a família como a «agência psíquica da sociedade» — a cor- reia de transmissão das exigências sociais à criança. A génese do carácter social é múltipla, explica-se na interacção dos factores socio- ideológicos, com predominância para a estrutura económica porque se impõe a longo prazo de maneira sensivelmente invariável, A estrutura económica adquire toda a sua força no facto de expressar  a premência da satisfação das necessidades de sobrevivência, O carácter social é a argamassa que pode transformar-se em dinamite, quando as condições externas se modificam a ponto de o colocarem em dissonância com modo de produção. Ele é o garante de uma harmonia perdida, ou melhor, de uma harmonia que cada vez mais pertence ao passado, e por isso se transmuda na areia da engrenagem social. Segue-se a tese de que cada sociedade trans- porta no seu seio o gérmen da sua própria destruição.

c)         A Alienação

 O capitalismo contemporâneo inflige na personalidade uma estrutura caractereológicamente deformada, traduzindo-se na orien- tação mercantil de que resulta o fenómeno da alienação. Diz-nos Fromm: «Para Marx, tal como para Hegel o conceito de alienação baseia-se na distinção entre existência e essência, no facto de a existência do homem ficar alheada da sua essência, de na realidade ele não ser o que potencialmente é, ou, por outras palavras de ele não ser o que deveria ser, e de ele dever ser aquilo que poderia ser» (5). Concretamente, o indivíduo é reduzido ao seu papel sócio-- económico a sua finalidade é vender-se com o maior êxito possível no mercado; ele é essencialmente um valor de mercado, foi transformado em valor de troca está alienado e não realiza as suas potencialidades, O indivíduo é coisificado para melhoir ser traduzido como número no enquadramento burocrático da realidade, no qual o «processo de quantificação e abstractificação  transcendeu o campo da produção económica e invadiu a atitude do homem para com as coisas, as pessoas e até  para consigo mesmo» ( 6 O homem perde-se e consequentemente perde a realidade como tal, uma vez que não se relaciona produtivamente com nada. À seme- lhança do fenómeno da idolatria (que o Antigo Testamento tinha referido), a alienação de si expressa-se no culto do resultado dos seus próprios actos idolatrizados forças estranhas de que perde a noção como o  fruto do seu esforço produtivo. Ele perde o sentido do eu como perde o sentido dos seus próprios poderes, entregando-se ao domínio de uma exterioridade repressiva que ele próprio criou — assim a criação eleva-se acima do criador, domi- nando-o anonimamente e receptando a sua identidade,

A orientação mercantil inocula uma finalidade compulsiva e irracional no consumo que se torna um fim em sL Fomenta-se uma atitude receptiva para escoamento das necessidades artificiais que o sistema desenvolve a fim de manter o princípio da produção pela produção, quer dizer do consumo pelo consumo, indispensável à sua própria sobrevivência que se impõe como objectivo último.

 POST SCRIPTUM

Este trabalho iniciou-se na perspectiva de realizar uma, sinopse interpretativa da obra de Erich Fromm, à «Psicanálise da Sociedade Contemporânea»; posteriormente evoluiu no sentido de  completar o circulo hermenêutico, inserindo a obra na totalidade do pensamento do autor.





(!) TAR, Zoltan, A Escola de Francoforte, '1986, Edições 70, p. 13-14
(2) Enciclopédia Luso-Brasileira, Lisboa, Verbo, Tomo 8, pp. 1721-1722.(3)        Sobre crítica de Fromm teoria Freudiana da Libido transcreve- mos uma passagem elucidativa, «...toda qualquer sociedade possui uma estru- tura Libidinal distinta, tal como tem as suas próprias estruturas económicas, social, política e cultural. Essa estrutura Libidinal é o produto da influência das condições sócio-económicas sobre os impulsos humanos; por sua vez, é um factor importante no condicionamento da evolução emocional nos vários níveis da sociedade e no conteúdo da superstrutura ideológica. estrutura Libidinal de uma sociedade é o meio pelo qual a economia exerce a sua influência nas mani- festações intelectuais e mentais do homem». Estamos portanto longe do inatismo mecanista da Libido Freudiana. No texto citado segue-se uma nota que é do maior interesse transcrever: «Aquilo a que chamei aqui a «estrutura Libidinal da sociedade», usando terminologia Freudiana, passei designar, nos meus tra- balsos ulteriores, como «carácteir social»; apesar da mudança na teoria da Libido,   os conceitos são os mesmos». FROMM, Erich, Crise da Psicanálise, oitava edição, Rio de Janeiro, 1971, p» 159.
(4)             FROMM, Erich,  Conceito  Marxista do  Homem,  oitava  edição,  Rio  de Janeiro, Zahar Editores, 1975, p. 35.
(5)               Opus, cit, p. S5.
(6)             FROMM, Erich, Psicanálise da Sociedade Contemporânea, décima edição, Rio de Janeiro, 1983, pp, !lili7-dT8.



 INTRODUÇÃO À LEITURA DE ERICH FROMM
 Erich Fromm tenta o diálogo entre Marx e Freud, um encontro entre a teoria crítica da  sociedade e  a  da sua consciência. Este é o ponto de partida para uma crítica das ideologias, ou seja, uma análise do que o Autor considera a patologia dos comportamentos que se codificam num «Carácter Social», peça-móvel e articuladora da infra e da superstruturas. O cimento, mas também a dinamite, que estão na origem e nos objectivos duma estratégia global de manipulação da(s) exigência(s). A 'nossa intenção é apresentar uma recensão crítica, que apela para o seu universo teórico originaL

 SUMMARY of «Introduction to Erich Fromin's Thought»

 Erich Fromm tries a dialogue between Marx and Freud, producing a meeting between the critical theory of society and the one of its conscience. This is the starting point from where a critic of ideology departs, which means  an analysis of what the Author considers a pathology of those actions codified as «Social Characters something like an articulation of 'the infra and the super- structure. The ciment, but also the dynamite that stands at the origin and the goals of a global strategy to manipulate motivations. Our purpose is to present  a critical epitome, that appeals to its original theoretic universe.



RÉSUMÉ de «Introduction à la Pensée de Erich Fromm»


 Erich Fromm essaie un dialogue entre Marx et Freud, un  rendez-vous de  la théorie de la société et celle de la conscience. Ceci représente le point de départ d'une critique de l'idéologie, c'est-à-dire, une analyse de ce que l'Auteur considère la pathologie de ces actions codifiées comme un «Character Social», quelque chose semblable à une articulation entre l'infra et la superstructure. Le ciment, aussi bien que la dynamite qui est à l'origine et dans les objectifs d'une stratégie global de manipulation des motivations. Notre propos est de présenter un épitome critique, qui fait appelle à son univers théorique originaire.

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