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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

"O Coração do Homem", novo livro disponibilizado de Erich Fromm

 



"O Coração do Homem", novo livro disponibilizado de Erich Fromm.

Nessa obra Fromm busca responder se o homem (natureza humana) é bom ou mau. Assim, através dos recursos da psicanálise e da sua interpretação da obra de Marx, Fromm confronta várias posições equivocadas e diz que o ser humano não é bom nem mau. Leitura importante para quem quer compreender Fromm e seu pensamento, bem como sua contribuição para a compreensão da psicanálise, o humanismo e a sociedade moderna.

Para acessar este e outros livros de Erich Fromm em pdf, clique aqui.


sábado, 14 de agosto de 2021

O Conceito Marxista do Homem - Novo livro disponibilizado de Erich Fromm



Essa obra de Fromm apresenta os Manuscritos de Paris (também conhecido como Manuscritos Econômico-Filosóficos), de Karl Marx, completo e ainda uma análise desse material por Erich e alguns anexos complementares. No seu extenso comentário, Fromm busca resgatar o verdadeiro Marx, a sua reflexão sobre alienação, a sua concepção humanista de comunismo, bem como mostra a deformação leninista e falsificação do socialismo na URSS, um verdadeiro capitalismo de Estado.

O livro apresenta uma maior aproximação de Fromm em relação a Karl Marx. Marx sempre foi uma referência no pensamento de Fromm, mas a confusão do seu pensamento com o pseudomarxismo gerava algumas interpretações equivocadas de Fromm, especialmente no que se refere ao problema da natureza humana e do socialismo, que o psicanalista alemão revê no seu longo texto de análise do escrito póstumo do fundador do marxismo. Nessa obra, Fromm reconhece a semelhança entre sua concepção de natureza humana e a de Marx, bem como o impacto disso na concepção de "socialismo" no teórico do comunismo. Apesar de sua interpretação dos Manuscritos ainda ter pontos problemáticos, como a questão da alienação (confundida com "idolatria"), Fromm faz uma análise que rompe com as más interpretações, especialmente as reformistas e leninistas, do pensamento de Marx.

Para acessar Clique Aqui.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

QUEM É HOMEM?



QUEM É HOMEM? *

Erich Fromm

A pergunta “Quem é homem?” leva-nos diretamente ao âmago do problema. Se o homem fosse uma coisa, então poderíamos perguntar o que ele é e defini-lo do modo que definimos um objeto na natureza ou um produto industrial. Mas o homem não é uma coisa e não pode ser definido do mesmo modo que definimos uma coisa. Apesar disso, entretanto, o homem é frequentemente visto como uma coisa. É descrito como um operário, um gerente de fábrica, um médico, etc. Mas tais descrições nos dizem apenas qual é a função social de um indivíduo. Em outras palavras: o homem é definido em termos de seu lugar na sociedade.

O homem não é uma coisa; é um ser vivo envolvido num processo contínuo de desenvolvimento. Em cada ponto de sua vida, ele ainda não é o que pode ser e o que ainda pode vir a ser.

Embora o homem não possa ser definido do modo que definimos uma mesa ou um relógio, ele não foge inteiramente à definição. Podemos dizer mais sobre ele do que não é uma coisa mas um processo vivo, O mais importante aspecto da definição de homem é que seu pensamento pode ir muito além da satisfação de suas necessidades físicas. Para ele, pensar não é – como para um animal – simplesmente um meio de obtenção de bens desejados; é também um meio de exploração da realidade do seu próprio ser e do mundo à sua volta, independentemente de suas simpatias e antipatias. Em outras palavras: o homem não só tem inteligência, o que os animais também possuem, mas tem ainda razão, a qual ele pode usar para perceber a verdade. Quando o homem se deixa guiar por sua razão, atua de acordo com os seus melhores interesses como ser intelectual e físico.

Mas sabemos por experiência que muitas pessoas, cegas pela cobiça e a vaidade, não atuam racionalmente em suas vidas privadas. Pior ainda, as ações de nações são guiadas ainda menos pela razão, porque os demagogos estão sempre a postos para fazer o cidadão esquecer que levarão sua cidade e seu mundo à ruína se der crédito aos demagogos. Muitas nações caminharam irremediavelmente para a destruição por não terem logrado se libertar das emoções irracionais que estavam determinando seu comportamento e por não terem aprendido o caminho da razão. A tarefa crucial que os profetas do Antigo Testamento realizaram não foi, como pensa muita gente, predizer o futuro. Foi proclamar a verdade e, assim, sugerir indiretamente quais seriam as consequências futuras das ações presentes das pessoas.

Como o homem não é algo que possamos descrever desde fora, por assim dizer, temos que recorrer à nossa própria experiência pessoal como seres humanos para defini-lo. Portanto, a pergunta “Quem é homem?” obriga-nos a indagar, “Quem sou eu?”. Se queremos evitar o erro de tratar o homem como uma coisa, a única resposta que podemos dar à pergunta “Quem sou eu?” é: “um ser humano”.

A maioria das pessoas nunca tomou conhecimento de sua identidade como ser humano. Elas criam toda a espécie de imagens ilusórias de si mesmas, suas qualidades e sua identidade. Responderão frequentemente à nossa pergunta como “Sou professor”, “Sou operário”, “Sou médico”. Mas essa informação sobre o trabalho de uma pessoa nada nos diz sobre essa pessoa e não contém qualquer pista para ajudar-nos a responder à pergunta “Quem é ele?”, “Quem sou eu?”.

Neste ponto, deparamo-nos ainda com uma outra dificuldade. Todos temos uma certa orientação social, moral e psicológica. Quando e como sei se uma direção que alguém tomou será sua direção permanente ou se alguma experiência poderosa será capaz de fazê-la mudar de orientação? As pessoas atingirão um ponto em que estão fixadas tão firmemente em seus rumos que se posa corretamente dizer delas que são quem são e nunca mudarão? Estatisticamente pode ser possível dizer isso de muita gente.

Mas poderemos dizê-lo a respeito de cada pessoa até o dia de sua morte, e poderemos dizê-lo se considerarmos que talvez ela mudasse se tivesse vivido mais tempo?

Podemos definir o homem ainda de uma outra maneira. Ele é guiado por dois tipos de emoções e impulsos. Um tipo é de origem biológica e basicamente o mesmo em todas as pessoas. Inclui tudo o que se enquadra nos requisitos para a sobrevivência: a necessidade de satisfazer a fome e a sede, a necessidade de proteção, a necessidade de alguma forma de estrutura social e, num grau muito menor, a necessidade de realização sexual. As emoções do segundo tipo não têm raízes na biologia e não são idênticas para todas as pessoas. Essas emoções – como amor, alegria, solidariedade, inveja, ódio, ciúme, competitividade, cobiça, etc. – originam-se em diferentes estruturas sociais. No caso do ódio, temos que distinguir entre ódio reativo e endógeno.

Entendemos esses termos como paralelos à depressão reativa e endógena. O ódio reativo é uma resposta a um ataque ou uma ameaça a nós mesmos ou ao nosso grupo, e passa usualmente assim que o perigo passou. O ódio endógeno é um traço de caráter. Uma pessoa cheia dessa espécie de ódio está sempre buscando novos meios de passar ao ato, de concretizar esse ódio.

Ao invés das emoções de base biológica, as emoções socialmente geradas que acabei de mencionar são produtos de estruturas sociais específicas. Numa sociedade onde uma minoria exploradora domina uma maioria indefesa e empobrecida, existe ódio de ambos os lados. É mais do que óbvio que a maioria explorada sentirá ódio. Entretanto, o ódio da minoria dominante será alimentado pelo medo da vingança que os oprimidos posam um dia levar a efeito. Além disso, a minoria tem que odiar as massas a fim de sufocar seus próprios sentimentos de culpa e justificar sua exploração. O ódio não desaparecerá enquanto faltarem justiça e igualdade. Do mesmo modo, a verdade não prevalecerá enquanto as pessoas tiverem que mentir para justificar suas violações dos princípios de igualdade e justiça.

Algumas pessoas afirmam que princípios como igualdade e justiça são ideologias que se desenvolveram no curso da história e não fazem parte do equipamento básico, natural, do homem. Não posso dedicar-me aqui a uma refutação desse argumento, mas quero enfatizar um ponto que fala contra ele: o modo como as pessoas reagem se um grupo hostil viola os princípios de justiça e igualdade demonstra que as pessoas têm, no mais profundo de seu íntimo, um forte sentido desses valores. A sensibilidade da consciência humana em nenhuma parte é mais evidente do que no modo como a maioria das pessoas reage até às mais pequenas violações da justiça e da igualdade, desde que, é claro, não sejam elas próprias as acusadas de cometer tais violações; E assim é que a consciência encontra veemente expressão nas acusações que grupos nacionais fazem contra seus inimigos. Se as pessoas não possuíssem sensibilidade moral natural, como seria possível incitá-las a tão violentas paixões informando-as sobre as atrocidades que se alega terem sido cometidas por seus inimigos?

Ainda uma outra definição de homem diz que ele é um ser em que o governo instintivo do comportamento foi reduzido a um mínimo. O homem reteve, obviamente, certos elementos da motivação instintiva, como em sua necessidade de satisfazer a fome e de se reproduzir. Mas é somente quando a sobrevivência do indivíduo ou da comunidade está em jogo que o homem é primariamente motivado pelo instinto. A maioria dos impulsos que motivam as pessoas – ambição, inveja, ciúme, vingança – surge e é alimentada por constelações sociais específicas. O fato de que esses impulsos podem assumir prioridade, até mesmo sobre o instinto de sobrevivência, demonstra até que ponto eles podem ser poderosos. As pessoas estão frequentemente preparadas para sacrificar a vida a serviço tanto de seus ódios e ambições quanto de seus amores e lealdades.

O mais abominável de todos os impulsos humanos, a necessidade de usar uma outra pessoa para satisfazer os próprios fins, em virtude do próprio poder sobre essa pessoa, pouco mais é do que uma forma refinada de canibalismo. Esse impulso irrefreável para usar outros com vistas aos nossos próprios fins era desconhecido nas sociedades neolíticas. Para quase todos os que vivemos hoje é praticamente impossível imaginar que tivesse havido alguma vez um período histórico em que os homens não queriam explorar nem eram explorados. Mas esse tempo existiu. Nas primitivas culturas de caçadores-coletores e agrícolas, todos tinham o suficiente para viver e seria despropositado acumular bens. A propriedade privada não podia ainda ser investida como capital e usada como fonte de poder.

Essa fase do pensamento humano está refletida de forma simbólica no Antigo Testamento. Os filhos de Israel foram alimentados no deserto com maná. Havia maná em abundância e todos podiam comer quanto quisessem, mas o maná não podia ser armazenado. Tudo o que não fosse comido estragava-se e desaparecia no mesmo dia. Não adiantava especular sobre se viria logo ou não mais maná. Mas bens como cereais ou fermentas não desaparecem. Podem ser acumulados e dar poder àqueles que possuem maior quantidade de tais bens. Somente quando os excedentes começaram a ultrapassar um certo limite é que se tornaram vantajosos para a classe dominante, a fim de exercer o poder sobre outras classes e obrigá-las a executar trabalhos para os seus senhores, aceitando como seu quinhão o estritamente mínimo necessário à existência. O triunfo do Estado patriarcal fez dos escravos, trabalhadores e mulheres as principais vítimas da exploração.

Somente quando o homem deixar de ser um artigo de consumo para o seu “semelhante” mais forte, poderá o nosso período canibalístico, pré-histórico, terminar, e a nossa história verdadeiramente humana começar. Para que se efetue tal mudança, teremos que adquirir plena consciência de até que ponto são criminosos os nossos modos e costumes canibalísticos. Mas até a plena consciência permanecerá ineficaz se não for acompanhada de um remorso igualmente abrangente.

O remorso é mais do que sentirmo-nos meramente arrependidos a respeito de algo. O remorso é uma emoção poderosa. Uma pessoa com remorsos sente verdadeira repulsa por si mesma e pelo que fez. O remorso e a vergonha que o acompanha são as únicas emoções humanas que podem impedir que velhos crimes sejam repetidos continuamente. Onde não há remorso pode surgir a ilusão de que não foram cometidos crimes. Mas onde encontramos qualquer remorso genuíno? Os israelitas sentiram remorso pelo genocídio que perpetraram contra as tribos de Canaã? Os americanos sentem remorso pelo extermínio quase completo dos índios? Durante milênios o homem tem vivido num sistema que alivia o vencedor de remorso porque equipara poder e direito. Cada um de nós deveria confessar plenamente os crimes que nossos antepassados, nossos contemporâneos ou nós mesmos cometemos, diretamente ou através de omissão quando deveríamos protestar. Devemos confessar esses crimes abertamente, publicamente, em forma ritual, por assim dizer. A Igreja católica romana oferece ao indivíduo a oportunidade de confessar seus pecados e deixa que a voz da consciência seja ouvida. Mas a confissão individual não é bastante, porque não envolve os crimes que são cometidos por um grupo, uma classe, uma nação ou, de suma importância, por um Estado soberano, o qual não está sujeito aos ditames da consciência individual. Enquanto formos relutantes em fazer “confissões de culpa nacional”, continuaremos adotando os nossos velhos hábitos, mantendo os olhos abertos para os crimes dos nossos inimigos, mas permanecendo cegos para os crimes do nosso próprio povo.

Como podem os indivíduos começar a obedecer aos ditames da consciência de um modo sério quando nações, que professam ser guardiãs da moralidade, agem sem consideração alguma pela consciência? O que inevitavelmente se segue é que a voz da consciência é silenciada em cada ocasião, pois a consciência é não menos divisível do que a verdade. Se a razão humana pretende tornar-se um guia efetivo para as nossas ações, ela não pode ser dominada por emoções irracionais. A inteligência continua sendo inteligência, mesmo quando devotada a fins perversos. A razão, porém, a nossa percepção consciente da realidade tal como é e não como gostaríamos de vê-la a fim de podermos explorá-la para os nossos próprios fins – a razão, nesse sentido, só pode ser eficaz na medida em que pusermos de lado as nossas emoções irracionais, isto é, na medida em que, como seres humanos, nos tornarmos verdadeiramente humanos e os impulsos irracionais deixarem de ser a principal força motivadora subjacente em nossas ações.

Isso leva-nos à questão seguinte: que impulsos são necessários à sobrevivência da espécie humana? A agressão e a destrutividade podem ajudar um grupo a erradicar um outro e assim assegurar sua própria sobrevivência, mas esses impulsos assumem um significado diferente se os considerarmos no contexto da humanidade como um todo. Se a agressividade se propagasse à população humana inteira, culminaria não só na destruição de um grupo ou outro, mas, em última instância, na erradicação de toda a espécie humana. No passado, tal pensamento não se relacionava com a realidade e consistia meramente em especulação ociosa. Hoje, o nosso amor à vida atingiu seu ponto mais baixo. A destruição da humanidade como um todo é uma possibilidade concreta, porque dispomos hoje de meios de autodestruição maciça e porque brincamos realmente com a ideia de utilizá-los. Hoje, temos de compreender que o princípio de sobrevivência dos mais aptos – a irrestrita vontade de poder de Estados soberanos – pode resultar na destruição da humanidade inteira.

No século XIX, Emerson disse: “As coisas estão na sela e cavalgam a humanidade”. Hoje podemos dizer: “O homem fez das coisas seus ídolos e o culto desses ídolos pode destruí-lo”.

Dizem-nos repetidamente não haver limites para a maleabilidade dos seres humanos e, à primeira vista, isso parece ser verdadeiro. Um exame do comportamento humano através dos tempos mostra-nos não existir praticamente nenhum ato, do mais nobre ao mais vil, de que o homem não seja capaz e não tenha realmente realizado. Mas tese da maleabilidade dos seres humanos sofre restrições. Qualquer comportamento que não sirva ao crescimento de uma pessoa, ao seu progresso no sentido da autorrealização, tem seu alto preço. O explorador teme o explorado. O homicida teme o isolamento a que suas façanhas o condenam, mesmo que o isolamento não assuma a forma de isolamento na prisão. O destruidor teme sua própria consciência. O consumidor sem alegria teme viver sem estar verdadeiramente vivo.

Implícita na afirmação que o homem é infindavelmente maleável está a possibilidade que ele possa estar vivo, do ponto de vista fisiológico, mas mutilado num sentido humano. Tal pessoa será infeliz. Não experimentará nenhuma alegria. Estará repleta de amargura, e a amargura a tornará destrutiva. Somente se ela puder libertar-se desse círculo vicioso reabrirá a possibilidade para a alegria. Se pusermos de lado condições patológicas congênitas, podemos dizer que os seres humanos são psiquicamente saudáveis ao nascer. Eles só se incapacitam nas mãos de outros que querem exercer total controle sobre seus semelhantes, que odeiam a vida e que não suportam ouvir risos de alegria. Se uma criança fica então mutilada, eles sentem-se justificados em sua atitude hostil para com essa criança e consideram sua hostilidade uma consequência do comportamento doentio da criança, não sua causa.

Por que quereria alguém fazer de outrem um mutilado? A resposta a essa pergunta reside no que eu disse a respeito do canibalismo que ainda está presente hoje em nossa sociedade. Uma pessoa psiquicamente mutilada pode ser mais facilmente explorada por uma forte. A pessoa forte pode revidar; a fraca não pode. Ela está à mercê das pessoas malévolas no poder. Quanto mais um grupo dominante pode converter em mutilados psíquicos aqueles a quem domina, mais fácil é para ele explorar seus subordinados, usando-os para promover seus próprios fins.

Por ser o homem dotado de razão, ele pode analisar criticamente sua experiência e discernir o que promove seu desenvolvimento e o que o impede. Trabalha para alcançar o mais harmonioso crescimento possível de todos os seus poderes mentais e físicos, tendo por meta final a realização do bem-estar. O oposto do bem-estar é a depressão, como demonstrou Spinoza. Isso sugere que a alegria é um produto da razão e a depressão é o que resulta de um modo incorreto de vida. Isso encontra a mais clara das confirmações no Antigo Testamento, onde é interpretado como grave pecado por parte dos israelitas que suas vidas sejam desprovidas de alegria, ainda que vivam no meio da abundância.

Os pressupostos básicos da sociedade industrial estão em conflito com o bem-estar humano. Quais são esses pressupostos? O primeiro pressuposto básico é que a natureza tem de ser controlada. Mas a sociedade pré-industrial não controlou também a natureza? É claro que sim; caso contrário, o homem já teria morrido de fome há muito tempo. Mas o modo como controlamos a natureza na sociedade industrial é distinto de como as sociedades agrícolas o fizeram. Isso é particularmente verdadeiro a partir do momento em que a sociedade industrial passou a usar a tecnologia para controlar a natureza. A tecnologia usa a capacidade de pensar do homem para produzir coisas. É o substituto masculino do ventre feminino. Por isso é que no começo do Antigo Testamento se descreve como Deus criou o mundo através do Verbo. No mais antigo mito babilônico da criação, é a Grande Mãe quem gera o mundo.

O segundo pressuposto básico da sociedade industrial é que os seres humanos podem ser explorados por meio da força, recompensas ou – com maior frequência – uma combinação de ambas.

O terceiro pressuposto é que a atividade econômica tem que ser lucrativa. Na sociedade industrial, o motivo de lucro não é, primordialmente, uma expressão de ganância pessoal, mas antes, um teste para a correção do comportamento econômico.

Não produzimos bens para serem usados, embora a maioria dos bens tenha que ter algum valor utilitário se quiserem ser vendáveis. Produzimos bens para obter lucro. O resultado final de minha atividade econômica tem que ser que ganho mais do que tenho de gastar para a produção ou aquisição de bens comerciáveis. É um ero comum representar o motivo de lucro como um traço psicológico pessoal, peculiar das pessoas gananciosas. O desejo de lucro pode, é claro, ser apenas isso, mas tal noção do motivo de lucro não caracteriza a norma típica numa sociedade industrial moderna. O lucro é simplesmente uma prova de comportamento econômico correto e, por conseguinte, um critério para a competência nos negócios.

Um quarto traço, que é uma característica clássica das sociedades industriais, é a competição. A história mostrou, porém, que como resultado da crescente centralização e das dimensões de algumas empresas – e como resultado, também, da ilegal mas, não obstante, praticada fixação de preços – a competição entre grandes companhias deu lugar à cooperação. Onde existe competição, é mais provável que ocorra entre duas pequenas lojas de varejo do que entre grandes organizações industriais. Em toda a nossa moderna ordem econômica, inexistem vínculos emocionais entre vendedor e comprador. Em épocas antigas, havia uma relação especial entre um comerciante e seu freguês. O comerciante estava interessado em seu freguês e a venda era mais do que uma transação financeira. O negociante sentia uma certa satisfação em vender à sua clientela um artigo que era útil e atraente. Isso ainda acontece hoje, é claro, mas é a exceção e está limitado principalmente a pequenas lojas de um tipo antiquado. Numa dispendiosa loja de departamentos, os vendedores sorriem polidamente. De um modo vulgar, põem os olhos indiferentemente no espaço. Não precisaria assinalar que o sorriso na loja cara é falso e faz parte das despesas gerais refletidas nos preços mais elevados.

O quinto ponto que quero mencionar é que a capacidade de simpatia reduziu-se muito no nosso século. E deveria talvez acrescentar que a capacidade de sofrimento encolheu com ela. Não quero dizer com isso, é claro, que as pessoas sofrem hoje menos do que era costume. Mas encontram-se tão alienadas de si mesmas que já não possuem plena consciência de seu sofrimento. Tal como alguém com uma dor física crônica, elas acabam aceitando seu sofrimento como um dado normal e só o percebem quando ele aumenta além de sua intensidade usual. Mas não deveríamos esquecer que o sofrimento é a única emoção que parece ser verdadeiramente comum a todos os seres humanos, na verdade, talvez, a todos os seres sencientes. Por essa razão, uma pessoa sofredora que reconhece até que ponto o sofrimento é generalizado pode sentir o consolo da solidariedade humana.

Existem muitas, inúmeras, pessoas que nunca conheceram a felicidade. Mas não existe uma só que nunca tenha sofrido, por mais obstinadamente que tenha lutado para reprimir sua própria consciência do sofrimento. A simpatia é inseparável do amor à humanidade. Onde não há amor não pode haver simpatia nem compaixão. A indiferença é o oposto da compaixão e podemos descrever a indiferença como um estado patológico com tendências esquizóides. O que passa por ser amor por um outro individuo prova, com frequência, não ser mais do que dependência dessa pessoa. Quem ama somente uma pessoa não ama realmente ninguém.



* FROMM, Erich. Do amor à vida. Palestras radiofônicas organizadas por Hansd Jürgen Schultz. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.


terça-feira, 16 de julho de 2019

A PESSOA HUMANA SEGUNDO ERICH FROMM




A PESSOA HUMANA SEGUNDO ERICH FROMM

Caio César de Carvalho
Bacharel em Direito pelo IPTAN

Resenha de: NASCIMENTO, Sílvio Firmo do. A Pessoa humana segundo Erich Fromm. Curitiba: Juruá, 2010.

Nesta obra A pessoa humana segundo Erich Fromm, Sílvio Firmo do Nascimento nos convida a refletir sobre o comportamento humano dentro dos estudos de Erich Fromm (psicanalista e humanista), segundo uma proposta moralista de um homem dialético e contemporâneo, dentro de expectativas entre um “eu existo” e um “eu quero viver”.
Primeiramente, Nascimento trabalha a questão da crença segundo Erich Fromm, apresentando, logo no início do livro, as principais obras do psicanalista e humanista. O autor nos proporciona a compreensão de uma característica marcante do pensamento de Fromm, segundo o qual existe uma valoração das características do comportamento humano, atingindo, portanto, uma harmonia entre o modo de ser e de agir da pessoa humana.
Crê-se que a variação de personalidade influa em circunstâncias da conduta, ou seja, o “ser” e “dever ser” do homem faz com que existam variações de comportamento, principalmente, aquelas referentes às disposições para o bem e para o mal. A partir de estudos psicanalíticos, Nascimento nos remete aos ensinamentos de Fromm, no que se refere às características mais marcantes da personalidade humana, seguindo teorias desenvolvidas por Freud.
Fromm (NASCIMENTO, 2010, p. 40-47), influenciado por ideias de Freud e em seguida de Marx, foi o precursor na ampliação das ciências sociais, trazendo uma ideia de que a personalidade humana se confunde em temperamento e caráter, existindo, entre o simbolismo aplicado ao temperamento bem como ao desenvolvimento do conceito de caráter, uma divergência, a qual está intimamente ligada ao conceito de personalidade segundo Fromm.
Segundo Fromm (NASCIMENTO, 2010, p. 50) o temperamento refere-se à maneira de reagir, sendo constitucional e imutável. O caráter se entende como “o padrão de comportamento característico de um certo indivíduo”. A Psicanálise incluiu atualmente a esse conceito as relações interpessoais. Tem-se, a partir das ideias anteriormente propostas, que existe a necessidade de um processo de socialização, o qual faz o indivíduo seguir as razões de convívio em sociedade, remetendo-se às regras propostas nos estudos da Psicanálise humanista, de ser e de viver culturalmente. Essa forma de agir perante a sociedade parte do convívio e do modo com que se dá o desenvolvimento familiar.
Segundo o autor (2010, p. 74), a abordagem principal de Fromm para entender a personalidade humana está relacionada a compreender o homem no mundo moderno, com a natureza e com o próprio ser, dando início ao processo de socialização. A seguir, Nascimento (2010, p. 81) nos apresenta os mecanismos de fuga, que para Fromm se tornaram culturalmente significativos.
Esses mecanismos decorrem da insegurança de um indivíduo analisado isoladamente e, sem eles, a compreensão dos fenômenos sociais não seria possível. Nascimento (2010, p. 83-98) dá destaque a alguns mecanismos de fuga, os quais Fromm procura analisar, envolvendo a pessoa e seu modo de viver em sociedade, mostrando que pessoas neuróticas se diferem de pessoas normais apenas em grau mais acentuado.
O primeiro mecanismo de fuga a ser trabalhado na obra é o autoritarismo, e está relacionado ao anseio de submissão e dominação que aparecem em diferentes graus nos sádicos e masoquistas. O segundo a ser apresentado é a destrutividade. Como propriedade do nome, esse tipo de mecanismo de fuga busca a aniquilação ou a eliminação, visando ao afastamento do objeto pelo possuidor. Dos mecanismos de fuga, o mais comum na sociedade contemporânea é o denominado autômato. Os autômatos se camuflam na sociedade e se adaptam às condições de convivência natural, resguardando um sentimento reprimido em troca de um pseudossentimento.
Segundo Nascimento (2010, p. 98), “na sociedade moderna há uma automatização do indivíduo”, onde o padrão cultural deve ser adaptado pelo homem. O autor apresenta com destaque a questão da liberdade, relacionada ao desenvolvimento humano e diretamente ligada ao processo social. Fromm destaca esse aspecto humano direcionando seu pensamento às interações dos fatores psicológicos, econômicos e ideológicos. Após essas considerações, busca-se interpretar os conceitos de humanismo e ética, que ao longo dos tempos vêm baseando-se no conhecimento e em sua natureza humana. O exemplo que vem enfatizar esse aspecto na obra, de acordo com Nascimento (2010, p. 115), é o lema do iluminismo “confie em seu conhecimento”, impulsionando o homem a julgar de acordo com seu próprio pensar.
A ética humanista é dinâmica por se tratar da subjetividade do modo de pensar, e a liberdade de ideias influencia diretamente na cultura, que por sua vez não se mantém estática. O conhecimento se manifesta a partir da vontade, que chega ao ponto máximo do “egoísmo”, talvez ligado aos vícios individuais de sede de conquista pessoal, o que afeta diretamente a consciência. Fromm trata como consciência humanista a reação de cada um visando ao próprio bem estar e ao prazer verdadeiro, ou seja, a satisfação em concretizar poderes adquiridos.
O livro é uma menção à Psicanálise desenvolvida na sociedade contemporânea, com o objetivo de melhor compreender o comportamento humano, em que a cultura descende das frustrações, angústias e paixões humanas. O antropocentrismo a que Fromm nos remete segundo Nascimento (2010, p. 167), é o da arte de viver do homem, suas capacidades e o modo de ser no mundo, suas satisfações e alegrias juntamente com as exigências sociais de cada cultura.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

INTRODUÇÃO À LEITURA DE ERICH FROMM


INTRODUÇÃO À LEITURA DE ERICH FROMM


Carlos Reis 
Eurico Carvalho

1.        Fromm e a Escola de Fraxicoforte


A formação de Erich Fromm tem as suas raízes no pensamento crítico da sociedade que se organizou em Francoforte em torno das figuras de, e em particular, Horkheimer, Adorno, Marcuse e, mais tarde, de Habermas. Essa escola propunha como modelo de análise um marxismo independente de forças partidárias enrique- cido com conceitos oriundos da psicanálise» O seu pensamento era «crítico» no quanto transcendia os quadros observacioinais sujeitos   a estudo, o qual, deste modo, conduzia a  um esforço conclusivo já de ordem macro-sociológica, aliás dentro dos cânones da socio- logia europeia clássica. Voltando-se para o indivíduo, a «escola de Francoforte», aliás um grupo de indivíduos que organizaram as suas ideias no âmbito do Instituto de Investigação Social da dita cidade, recria o movimento iluminista que teve a sua alva na «vira- gem helenística» do século IVa.C que inicia a preocupação pela emancipação do indivíduo. Como diz M. Landmann: «O pensa- mento social da escola de Francoforte enfrenta a sociologia em- pírica (...). A última é acusada de aceitar os factos sociais como factos quase neutros, análogos às ciências naturais [porque] «o feiticismo dos factos» é uma «glorificação de tudo quanto existe», e por isso é anti-iluminismo» ( 1).

Em termos de enciclopédia (2) Fromm é definido como (sic) «neo-freudiano, verbalista e culturalista» — etiqueta esta, mo en- tanto, por ele rejeitada se as suas consequências forem lidas num contexto antropológico tradicional (aqui a vacuidade é-nos alheia...). Na verdade, a abordagem frommiana assina-se como uma análise dinâmica das forças económicas, políticas e psicológicas em jogo na sociedade. Além do mais Fromm só é freudiano na medida em que considera por assim dizer, o «espírito da teoria», ou seja, o seu carácter revolucionário enquanto desmascaramento do pressuposto cartesiano do sujeito todo-consciente; não seguindo, por outro lado,   a «letra da doutrina», isto é, o referente redutor da sexualidade,  é concepção mecanicista do homem cristalizada na Libido por uma «burocracia analítica» e impotente para abrir novas portas.

Para abri-las, em todo o caso, impor-se-á por si no quadro dessa «análise dinâmica» o contributo do marxismo. De facto, o destino futuro da psicanálise impunha necessariamente, desde Freud, a integração de categorias sociais no conjunto dos seus elementos doutrinários e técnicos, originalmente voltados para a dimensão individual do paciente. Sendo nos primórdios apenas um método terapêutico, a sua dinâmica interna exigia uma extensão ao homem social para um maior alcance da sua penetração analítica — pro- jecto no qual se empenhou toda uma geração dissidente à ortodoxia freudiana, a «esquerda psicanalística», nela se destacando Reich e Marcuse. Com efeito, entre marxismo e psicanálise existe uma possibilidade real de aproximação das suas teses, de que Fromm pretende ser, aliás, uma específica síntese efectiva.

Em primeiro lugar, a psicanálise e o marxismo são ciências materialistas enquanto uma proclama a compreensão da bio-- grafia através da análise da estrutura instintiva e dos conflitos íntra- psicológicos num contexto individualizado pela experiência de vida (a da infância, em especial) e pela constituição^ física herdada, a outra traduz a importância histórica da socio-grafia tendo  por base a correlação das forças e meios de produção no quadro duma luta de classes.

Estão particularmente próximas na análise da consciência como reflexo de outras forças encobertas, quer como expressão de uma existência social específica, quer determinada por impulsos de ordem biológica. Portanto, em ambas as teorias se mostram e se demons- tram as ilusões da «falsa consciência», seja esta colectiva ou indi- vidual — comitantemente se supõe uma explicação essencial dessa (consciência, tanto em termos de «ideologia» como de «racionali- zação», deste modo se instaurando aquilo a que Fromm chama uma nova «dimensão de honestidade».

Conquanto o homem julgue no seu agir, agir como julga, deter- minado pelos seus próprios interesses e motivos, na realidade é motivado por forças anteriores ou alheias à sua consciência das mesmas.

Em Marx, por exemplo, a lógica do processo histórico antecede a lógica subjectiva dos indivíduos nele envolvidos. Numa sociedade de classes a consciência do homem é necessariamente falsa cons- ciência, ideologia, a qual dá ares de racionalidade a algo que, devido às condições inerentes a uma sociedade de classes, e em si irra- cional. A percepção consciente da realidade como motor da mu- dança é, para Marx, uma condição de progresso social e revolução, tal como é para Freud a condição para a solução terapêutica da doença mental. Marx, diz-nos Fromm, alheio aos problemas de terapia individual, não falou da percepção consciente como força motriz da mudança individual, mas, considerando todo o seu sis- tema, de modo nenhum constitui um esforço ilegítimo fazer essa conexão*

2.        Fromm e a Psicologia Social Analítica


A síntese frommia'na de marxismo e psicanálise envolve no quadro do progresso histórico o domínio social não só da Natureza mas também do próprio ser natural do homem, no qual as «racio- nalizações» se inscrevem como ideologias do comportamento social- mente exigido no âmbito mais vasto das relações entre indivíduos influenciados e determinados pelo esquema económico-social em que encontram ou não a realização das suas necessidades. Por isso mesmo o modo como as ideologias são produzidas e funcionam pode ser correctamente perspectivado se chegarmos a com- preensão do nosso sistema de impulsos. Assim o objectivo' da Psicologia Social Analítica consistirá na apreensão do verdadeiro nó conceptual entre marxismo e psicanálise: a caracterização do dispositivo instintivo de um grupo, do seu comportamento libidinal e predominantemente incosciente, em função da sua estrutura sócio-- económica. A psicanálise pode, pois, enriquecer a concepção global do marxismo num ponto específico. Pode fornecer um conhecimento mais objectivo de um dos factores essenciais no processo social: a 'natureza do próprio homem. O próprio complexo dos instintos do ser humano é uma das condições «naturais» a fazer parte da infra-estrutura do processo social Porque o materialismo histórico requer uma psicologia, isto ét uma ciência da estrutura psíquica do homem, sem dúvida, a psicanálise surge-nos como a primeira disciplina a responder a essa necessidade — e nessa medida tem cabimento um projecto como o da Psicologia Social Analítica.
Se Marx afirma que os homens são os produtos das suas ideologias, a Psicologia Social Analítica pode descrever empirica- mente o processo de produção dessas mesmíssimas ideologias e mais ainda, a interacção dos factores «naturais» e sociais. Pode mostrar como a situação económica é transformada em ideologia através dos impulsos do indivíduo. Por outro lado, não só o meca- nismo cultural serve para dirigir as forças libidinais em direcções específicas, socialmente desejadas, mas serve também para enfra- quecer as forças da libido até que deixem de constituir uma ameaça   à estabilidade social. Por conseguinte, toda uma parte do aparelho cultural serve para formar a atitude socialmente exigida de modo sistemático e metódico.
A estrutura libidinal (3) (mais tarde Fromm dar-lhe-á o nome de «carácter social») é o produto da influência das condições sócio-- económicas sobre os impulsos humanos; por sua vez, é um factor importante no condicionamento da evolução dos vários níveis da sociedade e no conteúdo da superstrutura ideológica. Em suma,  a estrutura libidinal de uma sociedade é o meio pelo qual a economia exerce a sua influência nas manifestações intelectuais e mentais do homem.
A Psicologia Social Analítica tem, pois, claramente, o seu lugar no contexto do materialismo histórico. Investiga um dos factores naturais actuante nas relações entre a sociedade e a natureza: o domínio dos impulsos humanos é o papel activo e passivo por eles desempenhado no processo social Assim averigua acerca da sua função decisiva e mediadora entre a base económica e a formação das ideologias* O seu método é o da psicanálise freudiana clássica aplicada aos fenómenos sociais♦ Explica as atitudes 'compartilhadas e sociavelmente relevantes em função do processo de adaptação do mecanismo dos impulsos às condições da vida sócio-económica da sociedade.
Daí a Psicologia Social Analítica — na terminologia from- miana — não se limitar apenas à rejeição de alguns aspectos do freudismo, mas também faz por conseglir complementá-lo noutros — o próprio carácter dinâmico, já referido, da ciência analítica freu- diana clama por essa integração complementar. Aliás, segundo Fromm, a crise da psicanálise («burocracia analítica», «psicologia do sofá», etc) é uma crise que se insere no contexto global e angustiante da própria crise vertical do mundo contemporâneo,

3,    Fromm e a Patologia da Normalidade


Rejeitando todo o relativismo sociológico, através do qual todo o carácter patológico é assimilado pragmaticamente; comoi desvio individual da norma vigente e funcional de uma determinada socie" dade, Fromm considera a existência de um critério universal de saúde mental para a espécie humana. Pressupondo a ideia de uma natureza humana, esse critério, porque universal, porá em causa toda a justificação «estatística» da normalidade, e nessa medida postula como mentalmente são tudo aquilo que vá de encontro à satisfação não das exigências sociais mas das necessidades criadas pela situação especificamente humana.
Admitindo-se essas necessidades, a estrutura do problema altera-se: a saúde mental passa a avaliar-se pelo grau de adaptação da sociedade à natureza humana, e não o contrário,

a)         A Situação Humana
'Partindo do conceito marxista da Natureza Humana, Fromm procura correlacioná-lo com a noção freudiana de inconsciente, autorizado pela própria concepção marxiana de impulsos consti- tuintes do ser natural do homem. Nos termos da teoria de Marx,   o comportamento humano é condicionado por variáveis «constantes ou fix [a] s, como a fome e o desejo sexual, que são parte integrante da natureza humana e só podem variar na forma -e direcção> assu- midas em diversas culturas; quanto às variáveis relativas não fazem parte integrante da natureza humana, mas [como diz Marx] devem   a sua origem a certas estruturas sociais condições de produção e de comunicação» ( 4 ),
A ideologia traduz os valores e objectivos propagados por uma sociedade; por outro lado, os impulsos relativos resvalam para defeitos socialmente modelados, quer dizer necessidades artificiais, isto é, justificações meramente ideológicas do «status quo» social. Desta forma ficam interligadas ideologia e alienação, enquanto perversão implícita duma natureza humana,
O ser humano superou os quadros coercivos das estruturas neurológicas herdadas em que se inscreve a  harmonia animal com a Natureza. Por isso, a condição humana é deveras peculiar; Noto- riamente surge a consciência. Contrapondo-se à vida animal, sim- plesmente «vivida», passiva e inconsciente, o homem transcende a sobrevivência existindo esta na maldição do seu destino e na ingente dicotomia da sua situação existencial, porque a  história é ele próprio. Conquistou-se a si mesmo num longo processo de ultrapassagem de uma fase narcísica de idolatria e totemismo, atin- gindo assim os primórdios da objectividade. Mas como a cada passo se abre o desconhecido, temos medo. Daí resulta a inelutável polaridade da existência — a encruzilhada do ser: para trás, a loucura incestuosa da refressão; adiante, o abismo do insondável,
É na tensão dessa polaridade existencial que todas as necessi- dades humanas essenciais são determinadas, A sua consciência exige uma estrutura de orientação, dentro de uma cultura que res- ponda ao problema fundamental da existência. Tal resposta é a definição própria de religiosidade, porque enquanto solução para o sentido da vida, enquanto horizonte, o cultural é sempre religioso e vice-versa. Transcendendo a Natureza o homem transcende-se a si mesmo, e neste movimento constrói a História,
Deduzidas da condição humana, as necessidades fundamentais, são a expressão dos factores reais que determinam a singularidade da existência» A sua satisfação acompanha a prossecução do pro- cesso histórico de auto-criação, efectivando-se aí a integridade da saúde mental. Rompendo a união primordial com a Natureza, abraça a solidão — o preço, afinal, de ser diferente. Tem de cons- truir o mundo dos homens, porque apearas se poderá encontrar no  relacionamento com os seus semelhantes, A orientação produtiva realiza a comparticipação e a actividade criadora, concretizando-se nas várias esferas, desde o pensamento, onde a compreensão ade- quada da realidade e condição da construção indeformada da mesma e de si próprio, até à dimensão da acção e do sentimento, ou seja,  da arte e do amor — neste deve cumprir-se o paradoxo duma união que mantém a identidade de cada um dos poios, concorrendo para  a plenitude da relação amorosa uma face erótica e outra fraterna, conjugando a função sexual com o aspecto qualitativo' duma fusão que promove a igualdade. Doutro modo teremos uma preversão do amor que, distanciado de si próprio, se perde em labirintos do sadoi-masoquismo, A qualidade particular de amar transcende o próprio objecto opondo-se à relação simbiótica, na qual o senti- mento de identidade é procurado na submissão ou no seu contrário, porque em ambos se paga o tributo da depeindência de subsumir-se no valor dos outros. Com efeito, o amor pressupõe a liberdade impossível na simbiose,
O fracasso de qualquer tipo de relação é o fracasso absoluto da própria existência — o narcisismo é a fuga para dentro de si, aonde tudo é ilusão. O homem não controla a realidade e muito menos se controla, já que o narcisismo é o polo oposto da objecti- vidade, da razão e do amor, A ausência de qualquer tipo de relação conduz a demência das religiões particulares.

 b)         O Carácter Social

 O carácter social estabelece-se a partir das condições reais de produção, das suas determinações no  plano da  organização social, e por intermédio da influência destes dois vectores na natureza humana a fim de garantir a estabilidade e o funcionamento optimi- zado de uma dada sociedade. Portanto, o carácter social é função  da realidade sócio-económica — não se obtém estatisticamente pela soma crua dos traços gerais do comportameento, ou seja, dos este- reótipos sociais. Nessa medida, a sua função é modelar e canalizar   a energia individual para assegurar a mecânica dos objectivos so- ciais, A ideologia é, afinal, o lubrificante imediato da relação viciosa do modus operandi da sociedade, que, neste caso, visa apenas a própria manutenção, O «tatus ideológico plasma-se, enfim, como carecter social, enquanto comportamento e em todas as for- mas redundantes que a ideologia assume, constitumdo o  elemento de construção de um quotidiano mimético. Neste contexto Fromm aponta a família como a «agência psíquica da sociedade» — a cor- reia de transmissão das exigências sociais à criança. A génese do carácter social é múltipla, explica-se na interacção dos factores socio- ideológicos, com predominância para a estrutura económica porque se impõe a longo prazo de maneira sensivelmente invariável, A estrutura económica adquire toda a sua força no facto de expressar  a premência da satisfação das necessidades de sobrevivência, O carácter social é a argamassa que pode transformar-se em dinamite, quando as condições externas se modificam a ponto de o colocarem em dissonância com modo de produção. Ele é o garante de uma harmonia perdida, ou melhor, de uma harmonia que cada vez mais pertence ao passado, e por isso se transmuda na areia da engrenagem social. Segue-se a tese de que cada sociedade trans- porta no seu seio o gérmen da sua própria destruição.

c)         A Alienação

 O capitalismo contemporâneo inflige na personalidade uma estrutura caractereológicamente deformada, traduzindo-se na orien- tação mercantil de que resulta o fenómeno da alienação. Diz-nos Fromm: «Para Marx, tal como para Hegel o conceito de alienação baseia-se na distinção entre existência e essência, no facto de a existência do homem ficar alheada da sua essência, de na realidade ele não ser o que potencialmente é, ou, por outras palavras de ele não ser o que deveria ser, e de ele dever ser aquilo que poderia ser» (5). Concretamente, o indivíduo é reduzido ao seu papel sócio-- económico a sua finalidade é vender-se com o maior êxito possível no mercado; ele é essencialmente um valor de mercado, foi transformado em valor de troca está alienado e não realiza as suas potencialidades, O indivíduo é coisificado para melhoir ser traduzido como número no enquadramento burocrático da realidade, no qual o «processo de quantificação e abstractificação  transcendeu o campo da produção económica e invadiu a atitude do homem para com as coisas, as pessoas e até  para consigo mesmo» ( 6 O homem perde-se e consequentemente perde a realidade como tal, uma vez que não se relaciona produtivamente com nada. À seme- lhança do fenómeno da idolatria (que o Antigo Testamento tinha referido), a alienação de si expressa-se no culto do resultado dos seus próprios actos idolatrizados forças estranhas de que perde a noção como o  fruto do seu esforço produtivo. Ele perde o sentido do eu como perde o sentido dos seus próprios poderes, entregando-se ao domínio de uma exterioridade repressiva que ele próprio criou — assim a criação eleva-se acima do criador, domi- nando-o anonimamente e receptando a sua identidade,

A orientação mercantil inocula uma finalidade compulsiva e irracional no consumo que se torna um fim em sL Fomenta-se uma atitude receptiva para escoamento das necessidades artificiais que o sistema desenvolve a fim de manter o princípio da produção pela produção, quer dizer do consumo pelo consumo, indispensável à sua própria sobrevivência que se impõe como objectivo último.

 POST SCRIPTUM

Este trabalho iniciou-se na perspectiva de realizar uma, sinopse interpretativa da obra de Erich Fromm, à «Psicanálise da Sociedade Contemporânea»; posteriormente evoluiu no sentido de  completar o circulo hermenêutico, inserindo a obra na totalidade do pensamento do autor.





(!) TAR, Zoltan, A Escola de Francoforte, '1986, Edições 70, p. 13-14
(2) Enciclopédia Luso-Brasileira, Lisboa, Verbo, Tomo 8, pp. 1721-1722.(3)        Sobre crítica de Fromm teoria Freudiana da Libido transcreve- mos uma passagem elucidativa, «...toda qualquer sociedade possui uma estru- tura Libidinal distinta, tal como tem as suas próprias estruturas económicas, social, política e cultural. Essa estrutura Libidinal é o produto da influência das condições sócio-económicas sobre os impulsos humanos; por sua vez, é um factor importante no condicionamento da evolução emocional nos vários níveis da sociedade e no conteúdo da superstrutura ideológica. estrutura Libidinal de uma sociedade é o meio pelo qual a economia exerce a sua influência nas mani- festações intelectuais e mentais do homem». Estamos portanto longe do inatismo mecanista da Libido Freudiana. No texto citado segue-se uma nota que é do maior interesse transcrever: «Aquilo a que chamei aqui a «estrutura Libidinal da sociedade», usando terminologia Freudiana, passei designar, nos meus tra- balsos ulteriores, como «carácteir social»; apesar da mudança na teoria da Libido,   os conceitos são os mesmos». FROMM, Erich, Crise da Psicanálise, oitava edição, Rio de Janeiro, 1971, p» 159.
(4)             FROMM, Erich,  Conceito  Marxista do  Homem,  oitava  edição,  Rio  de Janeiro, Zahar Editores, 1975, p. 35.
(5)               Opus, cit, p. S5.
(6)             FROMM, Erich, Psicanálise da Sociedade Contemporânea, décima edição, Rio de Janeiro, 1983, pp, !lili7-dT8.



 INTRODUÇÃO À LEITURA DE ERICH FROMM
 Erich Fromm tenta o diálogo entre Marx e Freud, um encontro entre a teoria crítica da  sociedade e  a  da sua consciência. Este é o ponto de partida para uma crítica das ideologias, ou seja, uma análise do que o Autor considera a patologia dos comportamentos que se codificam num «Carácter Social», peça-móvel e articuladora da infra e da superstruturas. O cimento, mas também a dinamite, que estão na origem e nos objectivos duma estratégia global de manipulação da(s) exigência(s). A 'nossa intenção é apresentar uma recensão crítica, que apela para o seu universo teórico originaL

 SUMMARY of «Introduction to Erich Fromin's Thought»

 Erich Fromm tries a dialogue between Marx and Freud, producing a meeting between the critical theory of society and the one of its conscience. This is the starting point from where a critic of ideology departs, which means  an analysis of what the Author considers a pathology of those actions codified as «Social Characters something like an articulation of 'the infra and the super- structure. The ciment, but also the dynamite that stands at the origin and the goals of a global strategy to manipulate motivations. Our purpose is to present  a critical epitome, that appeals to its original theoretic universe.



RÉSUMÉ de «Introduction à la Pensée de Erich Fromm»


 Erich Fromm essaie un dialogue entre Marx et Freud, un  rendez-vous de  la théorie de la société et celle de la conscience. Ceci représente le point de départ d'une critique de l'idéologie, c'est-à-dire, une analyse de ce que l'Auteur considère la pathologie de ces actions codifiées comme un «Character Social», quelque chose semblable à une articulation entre l'infra et la superstructure. Le ciment, aussi bien que la dynamite qui est à l'origine et dans les objectifs d'une stratégie global de manipulation des motivations. Notre propos est de présenter un épitome critique, qui fait appelle à son univers théorique originaire.

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